‘KALLOCAÍNA’, DE KARIN BOYE

Por João B. Cabral

Se o adágio que diz que as grandes crises geram as grandes obras é verdadeiro, a situação do mundo no período entre guerras deveria ter gerado as maiores obras do século XX. Para os leitores que gostam de deslocar sua atenção para as distopias, foi logo ali que a sueca Karin Boye elaborou o seu Kallocaína, uma distopia que não deixa nada a dever ao 1984 de George Orwell ou ao Nós de Evgene Zamiatin ou ao Admirável mundo novo de Huxley.

Em 1940, Boye já era na Suécia uma poeta consagrada, mas foi com Kallocaína que se tornou um clássico. No livro, a fé na ciência se debate com a descrença na capacidade dos homens em projetar e gerir o mundo democrático. O conhecimento acaba se prestando a ser um auxiliar na dominação totalitária de um mundo completamente transparente, no qual os segredos e a ambiguidade são proibidos e revelados a partir de uma substância elementar.

Se os dias de hoje parecem os mais polarizados de todos, fica o convite a este livro que revela a radicalização ficcional do espírito sectário e da desconfiança mútua e generalizada. Um mundo sem nuance no qual o espírito humano cedeu à tentação do controle fatal do próprio destino e inteligência. No Brasil, o livro se encontra disponíveis em edições da Aleph e da Carambaia, mas são traduções diferentes. Prefiro a da Carambaia.

Leia mais do autor em Sepé.

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