Por Nelson Rego
Em seu livro, Lucio Carvalho nos apresenta dois em um: o ensaio que precede o ficcional e teoriza sobre a relação entre o fazer literário e a busca por algum resgate histórico da linguagem e da cultura indígena, silenciadas pela invasão colonizadora; a ficção, na sequência do proposto pelo ensaio.
A narrativa conta sobre remanescentes de um clã das etnias originárias, sobreviventes no território que num passado então recente fora chamado de Cisplatina por portugueses e brasileiros – território sob a permanente disputa e os recorrentes confrontos entre as forças conquistadoras, espanhóis contra portugueses, argentinos contra brasileiros. Especificamente, refregas da segunda metade do século XIX situam o contexto referido na ficção e é nesse pampa de muitas batalhas, tocaias e escaramuças que personagens de etnia minuana deslocam-se por ermos fazendo da fuga e do habitar por pouco tempo um jeito de viver em territórios dominados ou por gaúchos sul-brasileiros ou por gauchos platinos, ou compartilhados em cotidianos instáveis pelos homens falantes em espanhol, português ou alguma entre as feições fronteiriças do portunhol. Ainda que de peles tisnadas pelo sol, crestadas pelo açoite do vento, pigmentadas de outro modo pelas miscigenações, ainda assim, homens brancos – colonizadores ou invasores genocidas, ou ambos, conforme a perspectiva assumida.
Em La Minuana, no ensaio e na ficção, Lucio Carvalho discute sobre a enormidade do desafio de reconstituir a história de povos indígenas sem escrita. O que enxergamos desses povos não é por intermédio de vieses legados pela visão colonizadora branca? Ensaio e ficção, cada um ao seu modo, com a sua linguagem própria, investigam a relação entre sobrevivência e apagamento: adaptar-se ao apagamento é o modo de sobreviver. E ficção e ensaio dão um passo adiante, desdobram a pesquisa em busca de caminhos para a relação entre focar o esquecimento e o resgate de memórias. Como reconstituir, por meio de aproximações narrativas que articulam elementos culturais, o passado que foi silenciado?
Na ficção, Lucio procura respostas concebendo um desertor da Guerra do Paraguai, fugitivo de combates um pouco mais além da fronteira imediata, mas a fronteira é móvel, ela tem ido e vindo a passos largos ao longo dos tempos referidos e periodizados pelas guerras. A fronteira sempre deslocada está em toda parte. O desertor encontra acolhimento junto a um clã minuano e a uma feiticeira matriarca, abriga-se no viver às escondidas. O fugitivo narra a partir de sua posição iniciada frágil, e narra costurando os dois idiomas em guerra, incrustando palavras dos idioma charrua e guarani no tecido sensível que ele trama em crescendo. Ao reconstruir-se pouco a pouco em nova vida e contato com o novo idioma, emerge, para ele, a possibilidade de elevar a fuga a algo mais, outra existência, ultrapassagem do destino até então traçado pela violência.
O personagem da ficção está posto diante da mesma questão desafiada pelo autor do ensaio e da novela: a busca por enxergar de modo diverso aqueles outros que vão sendo apagados pela história e, no entanto, são os que o acolhem. No meio desses outros, o refugiado os deixará de ver como primitivos ora brutos, ora letárgicos. Irá emergir um olhar que não aquele dos brancos senhores da guerra, da conquista, da invasão.
Essa nova compreensão a formar-se para o branco é constituída em gradativos giros perceptivos acontecidos no caminho de mão dupla, enquanto ele vai devolvendo ao clã minuano algo do acolhimento que recebe. Escrever com nova perspectiva sobre os sem escrita não é um modo de devolver um pouco do muito que foi recebido?
O encontro entre as cosmovisões contém a ironia abissal, é o povo ligado ao culto xamanista da natureza que, ao acolher, perdoa o cristão advindo dos opressores que empurram a etnia em direção ao extermínio. O encontro modifica aqueles a se encontrarem, lhes traz circunstâncias frente às quais há escolhas e atitudes a serem firmadas. Uma das sínteses será a filha da xamã ter filho com o homem vindo do mundo das grandes guerras e recusar o batismo para esse filho – ela acolhe o homem, mas rejeita a outra cosmovisão.
A narrativa manifesta a reconstrução do jeito de ser no caminho feito de avanços e recuos na relação do narrador vindo de fora com ela, La Minuana, que somente é como é se imersa no povo nativo:
Quando finalmente consegui entrar, La Minuana baixou os olhos e apertou junto ao corpo os indiecitos da chusma, como se de mí se protegesse. Tal qual um yaguaretê e sus crias, estava claro que me via como se voltasse a ser aquél estranjero que um dia chegou sem aviso al rancho de su madre.
Caminho feito da descoberta de novas expectativas, que vão se infiltrando no jeito de ser:
No silêncio, cuasi desmaiando de sono enrolado em meu próprio corpo, escutei lejos o que me parecia um lamento. Algum animal da noite, pensei. Mas qual? Apurei o ouvido e decidi seguir mesmo no escuro aquela cantoria que parecia de um pájaro mas bem poderia ser dela… La Minuana.
Chega o tempo em que o dia a dia enfim está feito da vivência de que é possível, à pequena história dos indivíduos, driblar o destino para o qual a circundante história maior empurra. O afeto da pequena história tem, sim, dimensão política, sem nunca deixar de ser imersão de pessoas no cosmo humano e natural:
O dia não tinha frio nem era calor, como são os dias de otoño, dias del tero azul. Uma barbicha anciana de corticeira voló ante a nosotros na direção da pulperia e notei que o humo ainda volava arriba la chimenea. Poderíamos virar o mate, sentar bem ali na frente um tanto e simplesmente continuar la vida. Pero algo no me permitia moverme e La Minuana respaldó la cabeza e sus cabellos negros taparon mi vista e depois percebi que José afinal havia acordado, nos mirava e sorria como se fuéramos pa’ él como arte de alguna pintura, o qualquer otra cosa ansí.
Personagem e autor caminham juntos na busca por romper imagens congeladas pela narrativa colonialista. Para isso, é necessário que os minuanos falem. Ao mesmo tempo é preciso que esse falar não seja constituído como engodo: necessário marcar que é por intermédio da memória do narrador branco que algo da voz dos apagados e sem escrita chega a ser dito. Marcar a posição a partir da qual se pesquisa e se escreve é do compromisso com a verdade do limite, com a boa literatura e a boa política do afeto.
Verter a voz oral para a linguagem escrita é ao mesmo tempo perigo de queda e chance de escalar altura. Vários são os escritores que resvalam no alçapão associado ao estereótipo que, como a palavra já indica, reduz o personagem a um tipo suposto como representante de um povo. É quando autores correm o risco de achatar personagens – e o povo – à condição de receptáculos de chavões.
Lucio Carvalho faz a sua literatura na direção inversa à armadilha do estereótipo, a passagem da voz oral para a escrita constrói a fala do personagem narrador com a densidade de quem se faz singular. O narrador fala de si e de outros e, ao contar sobre as lembranças que ele guarda, o faz transmitindo as particulares personalidades. É um povo que fala, mas fala por meio de personagens recordados pelo narrador que os manifesta como pessoas e não variações puídas acerca de um mesmo tipo. Há pausas, gestos e modos que são insinuados pelas palavras e costurados a estas, incorporam-se ao texto. O texto literário opera um resgate do contexto histórico apresentando individualidades vivas, nos ajuda a sondar esse passado – e o presente que desde lá vem em nossa história gaúcha, brasileira e global, história de contraditórios que produzem ao mesmo tempo repetições e mudanças. Lúcio resgata memória sobre esquecidos, o resgate dos esquecidos de ontem é condição para resgates de quem hoje é empurrado para a margem.
Quem são os empurrados de hoje? Talvez as respostas incluam mais do que as imediatas e óbvias respostas. Talvez um inédito apelo civilizatório acabe por beneficiar a muitos mais do que a mera condescendência social supõe.
La Minuana é uma novela que busca recordar povos indígenas entranhados na hereditariedade e na formação gaúcha e que, no entanto, foram e permanecem quase sempre cortados da memória da tradição literária, assim como das melhores considerações sobre o que possam vir a ser a sociedade e nossos afetos e políticas. O personagem narrador concebido pelo autor sugere a possibilidade de encontros que superem o violento e o trágico do desencontro que continua ferindo a história. Um desses encontros possíveis é justamente o proposto e praticado por Lucio, a literatura pode nos infiltrar caminhos para a superação de apagamentos.
Ao final do livro, há um conjunto de referências bibliográficas, o que funciona como incentivo para que se pense com mais atenção sobre os entrelaces entre literatura e pesquisa, entre criar ficções e participar da construção da realidade.
Considero La Minuana um dos livros em que a união da inteligência com a sensibilidade o torna texto dos mais bem vindos para a encruzilhada de hoje, em que pulsa o anseio por saltar de uma repetida história de apagamentos para uma melhor história de encontros e diversidade.

