Por Monique Rodrigues
Roland Barthes – um dos grandes pensadores franceses do século XX – diz que “a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor”. Ele continua seu raciocínio explicando que as palavras SABER e SABOR derivam do mesmo verbo latino “sapere”. Ainda que, hoje em dia, esses dois substantivos tenham tomado caminhos distintos na língua portuguesa, é sempre um deleite quando eles se conectam.
Isso acontece no livro “Pasta senza vino”, romance de estreia do escritor gaúcho Eduardo Krause, publicado em 2014, pela Editora Dublinense. A obra conta a história de Antonello Bianchi, um italiano com descendência brasileira, jovem e bonito, que trabalha em um restaurante e que tem como principal ocupação na vida a conquista de mulheres, de preferência as turistas.
A narrativa abrange cinquenta anos da vida desse personagem, e nos expõe o percurso do herói (contemporâneo) em formação. A comida e o vinho italianos são quase personagens junto com Antonello, o conquistador que é derrubado pelo próprio veneno: ele se apaixona por Aline, uma morena brasileira misteriosa. A partir daí, deixamos de ver um homem galanteador e começamos a enxergar um homem apaixonado. E meio perdido.
Krause constrói uma figura de fato humana, alguém imperfeito e, por isso, verossímil. Sua escrita é fluida e envolvente, e dá conta também de explorar outras faces da vida do protagonista, como a perda da mãe e a relação conturbada com o pai. Antonello é um herói que duvida, e que não sabe todas as respostas. Com a fina ironia que lhe é característica, o autor nos transforma, enquanto leitores, em cúmplices do seu personagem.
Volto, então, a Barthes e seu argumento de que o texto está onde existe sabor. Como ingrediente dessa receita literária, há o fato de que a primeira palavra do romance é “pasta”, e a última é “vino”, ambas seguidas de um ponto de interrogação. Dois sabores, duas perguntas, e o que falta (“senza”) é tudo o que acontece entre a primeira e a última linhas da história. Lidar com as faltas parece ser a tarefa fundamental de Antonello Bianchi. E, arrisco a dizer, a de todos nós.
Livro: Pasta senza vino [2014], de Eduardo Krause.
Terceiro Selo – Editora Dublinense, 2014, 288p.
Texto citado: O prazer do texto [1973], de Roland Barthes.
Editora Perspectiva, 4ª ed., 2008, 80p.

