‘PEDRO PÁRAMO’, DE JUAN RULFO

Por Anna Mariano

Alguns livros, como algumas pessoas, não te abraçam na primeira visita. São os mais perigosos. Fechados sobre si mesmos, deixam na superfície o que Adélia Prado chama de palavra anzol; basta morder uma delas para sermos arrastados de forma irrevogável às suas entranhas.  

Pedro Páramo, única novela do escritor mexicano Juan Rulfo, publicada logo após O Chão em Chamas, seu também único e magistral livro de contos, é assim.  

Só de uma coisa temos certeza desde o início: o autor sentiu na pele aquilo que nos conta. Tendo visto o pai, o tio e o avô serem fuzilados pela revolução, perdendo a mãe para a tristeza poucos anos depois, passando de parente em parente, de orfanato em orfanato, e, mais tarde, de emprego em emprego, sua existência foi, no dizer de Carlos Fuentes, uma viagem ao coração da dor.

A prosa seca, toda feita de imagens e economia de palavras, tem como matéria prima o ser humano, suas confianças, suas covardias, o perigoso e dolorido México, suas aldeias mortas onde grassam rancor e desalento. Usando uma técnica literária admirável, reverenciada, entre muitos, por Borges e Cortázar, Rulfo deu a Garcia Márquez a chave do realismo fantástico de Cem Anos de Solidão. Sim, o espírito trágico e inovador de Rulfo estava lá naquela tarde remota em que José Arcádio Buendía levou o filho para conhecer o gelo.

O enredo de Pedro Páramo é simples. A trama acontece na perdida cidade de Comala para onde Juan Preciado, cumprindo promessa feita à mãe moribunda, vai em busca de Pedro Páramo, o pai a quem nunca viu, para cobrar o que esse lhe deve. Caudilho implacável, que deitou com muitas mulheres, mas amou apenas uma (Susana San Juan), Pedro Páramo, morto há muitos anos, era/é dono da fazenda Meia Lua, a maior da região, e também da aldeia de Comala.

Ao chegar, Juan Preciado entra em contato com diversos personagens, todos de alguma forma ligados a seu pai, todos inconscientes da sua própria condição de mortos (embora cientes de que os demais o estão), todos vagueando sem descanso pelas ruas pagando por pecados que o padre da aldeia, por imposição de penitência, não pôde perdoar.

Dono e senhor do próprio texto, alternando a voz do narrador em primeira e terceira pessoas, contando a história sem rigor cronológico, misturando o real ao sobrenatural, o passado ao presente, o sono à vigília, a morte à vida, Rulfo nos confunde e nos faz perguntar a cada parágrafo: para onde vamos? Pergunta inútil que se perde logo adiante. A resposta não importa. Acossados pelo mistério e pela beleza, depois que mordemos a isca, depois que prometemos a nós mesmos conhecer um tal Pedro Páramo, não podemos fazer outra coisa a não ser nos rendermos ao inesquecível.

Leia mais do autor em Sepé.

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