Por Deny Bonorino
Infância. Medo. Desejo. Afeto. Deste modo, Myrian Beck divide o seu livro Por causa do vento no bosque. A segmentação parece indicar uma preocupação com o fenômeno tempo, essa fantasia que Santo Agostinho dizia saber o que era, mas se lhe perguntassem já não saberia.
O tempo implica em memória, matéria dos sonhos. E o sonho é criador. Mas estruturar a memória, fazer com que ela plasme o fato estético é outra coisa. E essa “outra coisa” é o que nos traz a leitura de Por Causa no Vento no bosque. Percorrendo suas páginas, nos deparamos com textos de excelência. Ia dizer surpreendente, mas me contenho, poderia remeter a outro sentido.
Tá bom, fica também o “surpreendente.”
Os personagens que transitam são os do dia a dia, comuns, e, igualmente comuns em suas vicissitudes e arroubos. É, então que se revela o talento da autora. Extrair encanto no banal é para poucos. Os figurantes triviais — de perto ninguém é normal— tornam-se protagonistas singulares pela lupa amorosa da escritora que penetra no íntimo dos seres, revela o comovente, e, não raro, o bizarro.
O texto é irreverente, coloquial, desabusado mesmo. Mas não nos enganemos, trata-se de pudor, um jeito de perquirir despretensiosamente a alma do homem na sua mercurial condição.
E há a questão do estilo, da forma: “Tu perguntaste se poderíamos ser loucos e depois voltarmos às nossas personas, e eu disse que sim com a minha boca de Halls…”
Observem, no labiríntico da frase, a sofisticação, a economia. E nesta outra: “Recordo seu olhar, que repetidas vezes surpreendi tragando o espaço através de todas as coisas indo pousar, talvez, numa saudade ou noutra.”
“…indo pousar talvez numa saudade…” Que bela — e surpreendente — maneira de descrever a melancolia.
A autora, hábil esgrimista, estrutura a frase, a teia. As reflexões, traduzem quem teve — tem — uma vida. E a vida, por vezes, espelha a fala do Poeta: “O homem é um aprendiz, a dor é sua mestra.”
Mas não se trata de obra autobiográfica. A arte quando atinge alturas não se limita a falar apenas de si, fala dos anseios, das adversidades de todos — mesmo que não as tenha vivido.
Por Causa do Vento no Bosque. Que título bonito!

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