Por Juliana Berlim
A memória é com regularidade metaforizada como um tecido onde se registram as mais intensas impressões do percurso da vida humana. Há quem creia, porém – o que se retém é uma performance contínua da mente combinada com o espírito, que remodelam a matéria memorial conforme a progressão da existência. Seja como for, certos acontecimentos mostram-se tão mais decisivos que se configuram como pontos de mutação de uma trajetória pessoal. Assim se apresenta o encontro da jovem Sigrid Nuñez com sua então sogra e ídolo pessoal, a escritora norte-americana Susan Sontag.
A conexão fortuita de Nuñez e Sontag por intermédio da relação romântica entre David, o filho de Susan, com Sigrid, a jovem estudante, abala as convicções da aspirante a escritora diante de um dos baluartes da cultura literária dos EUA, à época vivendo a década de seus quarenta anos. A autora de Notas sobre o camp é descrita, porém, não como uma figura intocável da literatura, uma opulência entronizada na torre de marfim, mas como um ser humano bastante tangível em suas fragilidades e desvios de caráter. Uma descrição impressionante é a de Sontag erguendo a blusa para visitas e apresentando o resultado de sua mastectomia parcial, ao passo que completa a ação com a pergunta: “Será que fiz pouco sexo?”, dizia, perplexa, do alto de seus 43 anos, sinalizando sua relação brutal com o câncer, enfermidade que a levaria à morte e a conduziu a escrever seu ensaio Doença como metáfora.
Descrições de cenas domésticas são recorrentes, já que o trio constituiu um núcleo familiar por volta de um ano, primeiro pelo pragmatismo de Sontag, a qual considerava uma atitude natural mãe/filho/nora residirem no mesmo local a fim de que Nuñez economizasse o valor do aluguel. Problemas com dinheiro mostram-se constantes para a ensaísta de Contra a intepretação, pois Sontag mantinha hábitos perdulários, como o de comer sempre fora (ela não sabia cozinhar e por vezes mal se alimentava, ainda menos mantinha hábitos alimentares saudáveis) e o de viajar compulsivamente; mas, sobretudo, porque a independência intelectual de Sontag se desdobrava em autonomia no autossustento: sem vínculos empregatícios, como eterna autônoma, em um recorte histórico do século XX dentro do qual as pessoas se sentiam aprisionadas a contracheques e contratos de trabalho bem definidos.
Outro ponto que Nuñez salienta é a bissexualidade de Sontag. Embora o movimento lésbico requeira Susan como um ícone seu, exclusivo, Sigrid testemunha o exato período do relacionamento da americana com o exilado poeta russo Joseph Brodsky (a quem a reunião de ensaios Questão de ênfase é dedicado). As diferenças culturais entre os namorados saltam aos olhos: enquanto Sontag acumula livros, mesmo sendo alguém que vivia de aluguel sem estabilidade financeira, Brodsky, sobrevivente da dinâmica da imigração, compreendia que o ato final após a leitura de um livro é a doação. Não apenas esta relação, mas também o relato de outras suas relações com importantes mulheres do circuito cultural nova-iorquino e de fora dele, que adotavam uma postura maternal com relação à ex-amante, mapeam a pluralidade relacional de Sontag. Se não recupero os nomes dessas mulheres, é porque me escapam. Eu, resenhista do momento, escrevo a partir da minha própria memória, porque perdi meu livro no meio dos outros exemplares de minha biblioteca infinita e bagunçada, e o nome que mais impressionou a organza da minha mente foi o de Brodsky, pois eu não acreditava que Susan Sontag tivesse mantido relações regulares com homens desde Philip, o pai de David Rieff, seu filho. Este curto livro de memórias refuta esta impressão e confirma, de alguma maneira, que a compreensão de liberdade de Sontag não admitiria limites de gênero e de restrições para sua sexualidade.
A arrogância e a frivolidade são outros pontos altos do retrato íntimo de Sontag. A cliente que desprezava os garçons de Nova Iorque, tratando-os como inferiores indistintamente; a intelectual incapaz de passar uma única noite em casa, cumprindo uma agenda social ininterrupta dentro da noite nova-iorquina efervescente (comportamento pelo qual era duramente criticada com frequência). A romancista ressentida, que se incomodava com a baixa popularidade de seus romances frente à popularidade de seus ensaios, e que preferia ser conhecida como ficcionista, apesar de seu inegável talento para a não ficção e para o estabelecimento de regras culturais.
O compromisso literário de Nuñez é, portanto, mostrar o lado mundano de um símbolo, descaracterizá-lo, dessacralizá-lo, como parece óbvio até aqui. Antes de fazê-lo para nós leitores, ela o faz para ela mesma, para a moça ingênua e incipiente no mundo literário da década de 1970, mas muito determinada e disposta a aprender as regras do jogo da vida literária. Alguém até mesmo inclinada a atitudes improváveis, como a de se desligar de David Rieff por estar se envolvendo com outra pessoa (Sontag reagiu mal à separação do casal). A jovem de compleição exótica, ascendência incomum e pouco inclinada à maternidade (Sontag tomou o desejo de Nuñez como absurdo, inconcebível na vida de qualquer mulher, a tal ideia da não maternidade) absorvia as influências daquela mãe espiritual, sem que, com isso, se deixasse enredar completamente por ela.
Será mesmo? Décadas passadas da intensa interação entre as duas intelectuais, Nuñez, uma autora reconhecida e premiada, com o romance O que você está enfrentando adaptado para o cinema por Pedro Almodóvar (o que resultou no filme em língua inglesa O quarto ao lado), tal qual uma casmurra nova-iorquina, reata as pontas inicial e final da vida para erigir um retrato personalíssimo da intelectual visceral e influente com quem construiu laços de família em torno de dois anos. Família, herança, legado, temas caros a Machado de Assis, autor admirado e estudado por Sontag. Ou simplesmente Susan, a querida Susan (ou a “Sempre Susan” do original) de Sigrid Nuñez, dona de uma personalidade única de quem nossa memorialista não se desvencilhou – ou nunca quis se desvencilhar.

