Por Thomaz Albornoz Neves
Resisto ao status dado nas últimas décadas ao portunhol. Embora compreenda perfeitamente o sentimento amoroso que o envolve, não o considero um dialeto em formação, uma língua híbrida ou uma interlíngua usada por uma comunidade específica. O portunhol é um linguajar.
Se estudarmos o processo linguístico dos isolados burgos na Alta Idade Média que formaram o romagnolo e o compararmos, por exemplo, ao napolitano, veremos que apesar de derivarem do latim e do osco-umbro ambos têm identidades diferentes.
Idiomas nascem, amadurecem, viajam e se transformam, mas em alguns milênios, não em menos de três séculos. Para ser breve: o vocabulário fronteiriço é mínimo e tomado por corruptelas. A gramática não traz nada de original em relação à sua fonte lusohispânica. Não há, repito, tempo de cristalização idiomática, nem crescimento da complexidade dialetal, que é contido pela alfabetização.
Mesmo que em regra as línguas desaguem, no caso de Sant’Ana do Livramento e Rivera o encontro é mais aéreo que líquido. Acontece sobre a superfície. É oral, sonoro, com farta corrosão silábica. Daí que resista a ser escrito. Notem que para filosofar, o portunhol carece de interioridade. Só dispõe de refrões, moralejas ou provérbios. Além disso, e apesar de mapas contextuais que ao longo cubram de Artigas ao Chuí e ao largo de Tacuarembó a Bagé, qualquer demarcação de um território
demográfico binacional que amplie as margens móveis e porosas da linha divisória é arbitrária.
Ou seja, só com degradação de fonemas, gíria e neologismos não se faz um dialeto ou uma sic interlíngua. Faltam elementos para que o portunhol seja mais que a terna fusão do português mal falado com espanhol contaminado e vice-versa. O que não o torna menos belo. Quem o conhece sabe o quanto ele é único em cada lugar. O quanto é, de certa forma, outra dimensão do lugar. E digo terna por ser suave, com as vogais aspiradas abrandando a rispidez das consoantes.
Quando assisto eventos onde o portunhol é explorado como instrumento de afirmação identitária, entendo a arma ideológica usada contra o sistema de forças sociais que historicamente exclui a periferia cultural por considerá-la menor em significância. Grave preconceito. A vida pulsa da periferia para dentro e reflui (a letargia reacionária dos centros é outro tema interessante, especialmente se polarizarmos Porto Alegre e Montevidéu em relação ao interior gaúcho e uruguaio. Mais sobre isso em qualquer momento).
Movimentos como o Jodido Bushinshe são válidos e legítimos. Mas daí a defender que o portunhol seja considerado patrimônio móvel da humanidade e torná-lo objeto de estudo acadêmico é uma forçação de barra homérica. Senão, imagine o estudante elocubrando uma tese de mestrado onde a teoria inventa o objeto de estudo pelo benefício da bolsa. Dela ao doutor orientador agindo para a criação de uma cadeira de Portunhol no curso de Letras é um passo. Arejemos o orçamento, dirá, o campo de pesquisa é virgem e fértil.
São gestos naturais, de imediata aceitação por parte da política cultural local, ávida por slogans vazios. Não se deve subestimar, portanto, o perigo de transformá-lo em um produto comercial, um gênero artístico, um estilo de comportamento.
Pois o que faz o stablishment ao absorver manifestações da cultura popular, senão padronizá-las? Me surpreende não ter surgido ainda o Festival do Portunhol… Gastronomia, enologia, palcos, guitarreadas, declamações e, claro, conferências (charlas)… Tudo bem pasteurizado para o turismo de consumo e o freeshop de bagageio. Perigo por perigo e pelo que se intui nas ruas, o bombardeio de conteúdos através da Internet ainda não atingiu o linguajar local com intensidade suficiente para diluí-lo. É mais, duvido que um dia o faça. De resto – e concluo arredondando o argumento -, é também de fácil comprovação o seu parco alcance em qualquer obra literária que pretenda usá-lo como escritura pura ou linguagem exclusiva. Com ler basta. O artifício salta aos olhos e se esgota no segundo poema ou parágrafo, colocando o autor em uma difícil posição diante da autenticidade do seu impulso criativo. Vou além, se for feito um filme falado só com vocabulário portunhol ninguém se comunica. O fronteiriço usa termos em portunhol, mas fala português ou espanhol. Muitas vezes tudo junto e misturado. Funciona melhor no teatro e no espetáculo, como bem nos mostra Chito de Melo, um senhor cantoautor.
Já a inclusão de conteúdo em portunhol nos poemas de Agustin Bisio e Saúl Ibargoyen ou nas estórias de Arlindo Coitinho, para dar os exemplos mais notórios, terminam por criar riquíssimos retratos da realidade fronteiriça. E o são justamente pelo uso adequado, medido, do nosso demótico regional. Sei que o assunto toca nervos expostos e, se por um lado sou contra, por outro sou a favor, dependendo do grau que separa o genuíno do falseado, o espontâneo do oportunista. Há esperteza e há arte. E humor.
Eventualmente, no meio de tanto pastiche e artifício, surge algo autêntico. Poetas que escrevem como escutam. É o caso de David Benavidez, criado no meio rural de Minas de Corrales, que publicou o livro Custurador de barro, (Rumbo) em 2019. Diz David: O portunhol tem um som próprio (diferente do português e do espanhol) e um potencial poético fascinante: para um poeta, que é uma criança brincando com as palavras, não há material melhor que uma língua que se deixa moldar, desmoldar e transmoldar como barro, com tanta facilidade e liberdade.
Barro Moiado
Sentado numa raíz du ombú tiña um gurí.
Um guriziño de cuatro, cinco ano.
U gurí era eu.
Era um Davi.
U Daviziño da foto de pé incardido
se hamacando imbaxo da parra
Era eu desde otro tempo dentro meu.
Era otro Davi, tambeñ.
Um Davi diantes mesmo desa infancia.
Um Davi-Alma.
Um Davi-Deus-Criança
O urbano e o cosmopolita também falam portunhol em alguns
dos poemas que Michel Croz reuniu em Política (tan ed.,
2021). A edição é bilíngue e conta com a particularidade de oferecer a tradução dos originais em portunhol riverense para o portunhol santanense. O trabalho de adaptação da matriz em espanhol para o português foi levado a cabo por Verônica
Loss. Vai como exemplo este:
Olynthomarianas u Olynthianas
las olynthianas parecen sueños de estío
das tarde quente y sudorenta escurriendo
as meleca du sobaco
oraciones cantos cantigas preces benzeduras puteadas
(u portuñol es a linguadusafeto)
la vida olytnhiana de a por cada beco
gresca escuro enrrugado
poeta veredas te celebran las bicas las picas us quilombo
as plazas lua as puta du parque y a calle Brasil
voy por donde voy me arreglo soy poco soy
tengo muito que facer volver as infancia das cometa
y dus panadero y du doce de goiabada
y tua sombra cuando se me pegoteia como um encosto
entre as media y us puños da camisa preta rasgada
la beleza de tus poema da rúa Brasil
como esperanza de pobre como mi triste esperanza
saber diso ayunta u mundo mistura
fariña de mandioca con torresmo
da sentido a la arboleda de plátanos que juegan
a las sombras chinas en nuestra memoria
una voz suspendida entre el follaje y
la vuelta y revuelta da sarandí
nus sábado com as cabriola das mirada
que se posan sobre el deseo de saber quién viene
por el otro lado de la vereda
no voy a apurarme u mundo cabe numa mirada sola
us oio revoleian pra oiá meior
to te querendo como se quiere a lua
de olyntho loca de blanca
pelas penumbra alumeia a misma lua
naquele cuadro de cúneo
deformado fantasmático tudo caindo
pelos borde dus cuadro
entre u pé y la mano torcida
e aqueles ranyo desencajado
Olynthomarianas ou Olynthianas
as olynthianas parecem sonho de estio
das tarde quente e suorenta escorrendo
as meleca do sovaco
oração cantos cantigas preces benzeduras puteadas
(o portunhol é a línguadusafeto)
a vida olynthiana por cada beco
turbulenta escuro enrugado
poeta calçadas te celebram as bicas as piça us quilombo
as praça lua as puta du parque e a calle Brasil
vou por onde vou me arrumo sou pouco sou
tenho muito u que fazê volver às infância das pandorga
i das amargosa e du doce de goiabada
i tua sombra quando se me pegoteia como um encosto
entre us carpim e as manga da camisa preta rasgada
a beleza dos teu poema da rua Brasil
como isperança de pobre como minha triste isperança
saber disso ajunta u mundo mistura
farinha de mandioca com tocinho
dá sentido ao arvoredo de plátanos que jogam
sombra chinesa na nossa memória
uma voz suspensa entre a folhagem e
a volta e revolta da Sarandi
nus sábado com as cabriola dus olhar
que pousam no desejo de saber quem vem
pelo outro lado da calçada
não vou me apurá u mundo cabe num só olhar
us óio reboleiam pra oiá meior
to te querendo como se qué a lua
de olyntho loca de branca
pelas penumbra alumia a mesma lua
naquele quadro de cúneodeformado fantasmático tudo caindo
pelas borda dus quadro
entre u pé e a mão torcida
e aqueles rancho desencaxado
Se o lirismo de Benavides é inspirado pelos campos dos Tres Cerros e o de Croz segue a linhagem fronteiriça, literária, do poeta Olyntho Simões, Marcio Cabrera com Nos botemo a cara nu alambrado (Editorial Vecina, 2024) transmite o portunhol suburbano do bairro Rivera Chico com sua feira da Cuaró, seus jogos de futebol citadino, sua vivíssima efervescência popular. Assim:
Lo que somos
Lo que sémo?
Nos sémo u que nos sémo.
Nos sémo sudor, sémo rebeldía.
Sémo solidau, sémo parceria.
Nos sémo contrabando, sémo ilegal.
Sémo boa gente, sémo bagual.
Nos sémo us pé de xinelo,
sémo una cometa nu cielo.
Nos sémo la melodía de lluvia num techo de chapa,
sémo cría de algún viralata.
Nos sémo los inorante, analfabeto mal hablado,
sémo hijo de los olvidado.
Nos sémo a mistura del día a día,
sémo cumbia, milonga y samba.
Nos sémo a havaiana remendada con un prego,
sémo el mormaso en pleno mes de enero.
Nos sémo la anarquía da gramática,
sémo plural y singular a la misma vez.
Nos sémo la piedra furada y el cerro chapeú,
sémo la alegría que tu nau entendeu.
Nos sémo u que nos sémo.
É inegável que o portunhol remarca uma identidade. Volátil, híbrida, indefinida, sabemos, mas amalgamada pelo afeto, como quem entende antes com o coração que com a mente. Leiamos mais um do Cabrera:
La feria de la Cuaró
En la esquina
orejeo el puesto de Salines.
Veo que camarada está.
Me dirijo hasta él,
garroneo un amargo
pregunto por Marcela,
por Gustavo.
Luis nos apabulla
con sus prédicas y amenazas religiosas.
Salgo en busca del quinielero.
Un feriante grita Bajó la banana!
mientras el pizarrón oferta
tres prendas por cien pesos.
El olor a queso
se entremezcla con el de pescado.
El de torta frita, estampado en
todas las cuadras.
Los cds truchos
promocionan bandas
que juro sólo ahí oírlas.
El puesto con camisetas de futbol
lucen todas las del momento:
La de Suárez del Gremio
La de Brasil de Marta.
A la globalización no somos ajenos;
está presente la del maiami.
Sí, falsificada,
en la feria de la Cuaró.
Se imaginará békan?
Encuentro al quinielero,
le juego a los cinco números,
le prometo su regalo por si acaso.
Três poetas que dividem o mesmo impulso de afirmação, como se o complexo de inferioridade nutrido pelo interior em relação às capitais marcasse o ponto desde a curva extrema, onde a língua mesmo está no limite da exclusão, e dissesse: às favas.

