‘VIÚVAS DE SAL’, DE CINTHIA KRIEMLER

Por Sandra Santos

A poesia perfuma as palavras, mas não se engane o leitor desprevenido: as palavras são lâminas arremessadas pela autora, uma exímia atiradora de facas! A crueza relatada paralisa nossos movimentos. Permanecemos, durante toda a narrativa, sem entender se estamos do lado de dentro ou do lado de fora da página, dentro ou fora das personagens. Personagens evisceradas tão eficientemente pela autora! O contato com a dor se dá quase por sincronicidade – dor tão brutal que não parece ser possível, mas sabemos que está aqui, no Brasil, e ali, na África e no mundo.   Não conseguimos ser meros espectadores da dor da protagonista, cuja dor vira gatilho de lembranças de nossas próprias dores. Nós, mulheres leitoras, seremos coadjuvantes dessa história. Identificaremos nosso próprio apagamento, nossas próprias mutilações, mas também a nossa força!

A personagem principal reescreve sua existência e a de outras companheiras, após escapar das mãos de um ser fantástico que surge na história, não para emprestar este tipo de estilo ao romance, mas para construir uma metáfora de resgate!  

A escrita de Cinthia é deleite! Um livro que oferece poesia, ainda que dentro da narrativa objetiva. O livro aborda corajosamente a violência contra as mulheres. Mulheres de mãos e braços fortes. Mulheres soterradas no sal das lágrimas, mas fortes para carregar outras mulheres nos ombros.

Para não entregar ao leitor, de forma antecipada, os hematomas e as armas das personagens, encerro com este gozo da página 86:

“Solidão é uma casa sem luz. Os pés tropeçam na mobília. As pernas se cobrem de hematomas. As mãos se machucam no vazio. Até que os olhos cegos se lembram. E dão-se conta de que tudo está lá, como sempre esteve.”

Leia mais da autora em Sepé.

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