Por Antonio Prates
O romance “Amrik”, de Ana Miranda, publicado em 1997 pela Companhia das Letras, trata da história e da memória de um grupo de libaneses cristãos que se estabelecem na cidade de São Paulo no final do século XIX, no entorno da famosa Rua 25 de Março. O título, que significa “América” em árabe, evoca a esperança e os desafios enfrentados pelos imigrantes levantinos que deixaram suas terras, então parte do Império Otomano, em busca do sonho de construção de uma nova vida.
Nascida em Fortaleza, com passagens em Brasília e Rio de Janeiro, Ana Miranda é autora conhecida por suas obras no gênero do romance histórico. Recebeu formação na área de artes plásticas e trabalhou como atriz em filmes do Cinema Novo. É também desenhista, tendo ilustrado as capas de alguns dos seus livros.
Ana passou a ter visibilidade como romancista no final da década de 80, quando publicou o livro “Boca do Inferno”, que tem como tema a cidade da Bahia do século XVII, e como protagonistas o poeta Gregório de Matos e o jesuíta Antônio Vieira. O livro lhe valeu o prêmio Jabuti de autora revelação de 1990. Outros de seus romances de mesma natureza são “O retrato do rei” (focado no ciclo do ouro em Minas Gerais), “A última quimera” (sobre o poeta Augusto dos Anjos), “Desmundo” (acerca das órfãs trazidas de Portugal para casar com os colonos no Brasil), “Clarice” (sobre Clarice Lispector), “Semíramis” (sobre José de Alencar), e “Xica da Silva, a cinderela negra”.
Amrik conta a história da imigrante Amina Salum, oriunda de uma aldeia cristã maronita nas montanhas do Líbano, onde seu tio Naim, cego e erudito, estava prestes a ser preso pelos otomanos, em função das ideias que compartilhava em seu círculo de amigos e conhecidos. Ameaçado, Naim encontra no exílio a única alternativa para continuar vivo. Amina é forçada pelo pai a acompanhá-lo.
Antes de chegar ao Brasil, Amina e o tio passam um período em Beirute, esperando um navio que os levassem à América. Desembarcam inicialmente em Nova Iorque, porém Naim é impedido de permanecer e toma um outro navio para o Brasil. Amina tenta a sorte nos Estados Unidos, mas as dificuldades e a solidão acabam por fazê-la decidir a se reencontrar com o tio.
A história começa no Jardim da Luz, em São Paulo, quando o tio lhe pergunta se ela aceitaria casar com o mascate Abraão. Essa pergunta a faz relembrar toda a sua vida, desde a infância no Líbano, com seu pai, seus irmãos e sua avó Farida, que lhe havia ensinado a dançar. A mãe havia fugido de casa quando Amina ainda era criança e ela é rejeitada pelo pai como forma de compensar a humilhação que havia sofrido perante a comunidade local.
O livro é composto de 154 capítulos breves, com uma página cada um. O primeiro destes, intitulado Cortesã de Trebesta, já estabelece o tom singular da narrativa:
Com o mascate Abraão eu ia ser muito feliz, diz tio Naim, viver numa casa imensa de avental contar ovos, bater manteiga, ralar abóbora, picar amêndoa, a natureza nos dedos, regar uma horta no quintal, alface hortelã tomilho, ter sexo na noite abençoado, açúcar cristal na língua hmmm. Com o mascate Abraão ia eu ter de dançar para ele haialá laia depois sentir as mãos dele me despindo, a língua dele arre o cipreste se sacia em suas fontes, as espadas lavram a concavidade dos vales, amantes branqueiam colinas com o leite de suas gazelas, ter de admitir suas brincadeiras e tapinhas, o sabre plantado, bocas unidas, naquela casa sem um quarto só pra mim, suportar as gazelinhas fazendo barulho correndo pela casa irra, o cheiro de galinha morta das velhas se lambendo os dedos, numa noite ser Xarazade, na outra Naziad a cortesã de Trebesta, na seguinte uma das moças de Adrar inebriando os golfinhos, cozinhar para quinze pessoas, viver só para ganhar dinheiro e ganhar dinheiro só para guardar e dar a vida para isso, o grande retorno para o Líbano, responde, Amina, aceita casar com o senhor Abraão?
Através da apropriação de muitas palavras e expressões do vocabulário árabe (reunidas em um glossário, ao final) e de referências constantes a outros elementos culturais, como parábolas, ditados, costumes, danças, poemas e receitas culinárias, a obra não retrata apenas a luta dos imigrantes para se integrar e prosperar em um novo mundo, mas também explora as complexidades da identidade cultural e da resistência feminina diante das adversidades. A forma como a autora aborda a resistência das mulheres imigrantes é especialmente notável, salientando suas lutas e conquistas em um contexto dominado por vozes masculinas.
Amrik, deve-se destacar, é um romance embebido de volúpia. Apesar das imigrantes sírias e libanesas, sejam cristãs ou muçulmanas, terem suas vidas reprimidas por rígidos preceitos morais e religiosos, dentre eles o da virgindade antes do casamento, seu imaginário é povoado de sensualidade, com profundas raízes na literatura clássica árabe. Há muitas menções às Mil e uma Noites, ao Rubaiyat e ao Jardim das Carícias, dentre outras obras. Além das frequentes fantasias eróticas, compartilhadas com Tenura, a empregada do seu tio, a sensualidade de Amina se expressa também através da dança, que lhe foi ensinada no Líbano, pela avó. É através da dança do al nahal, aliás, que Amina enfeitiça o mascate Abraão.
Nas palavras da própria autora, em uma entrevista sobre Amrik, “Amina é a mais antiga de todas as mulheres, é a mulher dividida entre a realidade e o sonho. É também a mulher diante da árvore do Paraíso, diante da tentação entre o saber-e-a-ciência e a intuição-magia-sedução. É também, claro, a mulher dividida entre a sensual liberdade e a proteção masculina.”
Amrik se destaca também pelo estilo experimental e riqueza linguística. Ana Miranda se inspira na literatura árabe para criar uma linguagem singular, que reflete as experiências culturais da protagonista, ampliando a profundidade temática do romance. Os curtos capítulos, quase sem pontuação, reproduzem as lembranças de Amina, através de um fluxo não linear e quase errático de consciência. Essa abordagem estilística foi considerada um marco na produção literária contemporânea brasileira.
Vale mencionar ainda que, curiosamente, Ana Miranda não possui ascendência árabe e, antes da publicação de Amrik, não havia visitado o Líbano. O livro é fruto de intensa e minuciosa pesquisa sobre a imigração libanesa para o Brasil, especialmente no final do século XIX. A autora menciona também ter sido inspirada por histórias que lhe foram contadas por mulheres da família do sociólogo e cientista político Emir Sader, com quem foi casada por mais de vinte anos.

