Por Iuri Müller
Anotado em um diário, com data de 14 de maio de 2024.
Há duas semanas, antes da subida das águas do Jacuí, do Taquari e do Guaíba, deixei reservado com o livreiro Miguel Gómez, da livraria Calle Corrientes, um ensaio literário sobre o mate, livro escrito por uma escritora missioneira: Al borde de la boca, de Carmen M. Cáceres. Não sei quando poderei retirar o exemplar.
A Calle Corrientes fica na esquina da Mauá com a Uruguai, a poucos passos do rio: como a sala do livreiro está no segundo piso do edifício, penso que o acervo, mesmo que paralisado e em longa espera, deve estar todo a salvo, o que me entrega um sincero alívio. E volto a pensar nos sebos do Centro, nem todos protegidos por escadarias ou pela geografia da cidade.
O relevo imbatível da rua da Ladeira por certo deve ter protegido as prateleiras do Ladeira Livros, de Mauro Messina, dono de um dos melhores acervos de humanidades e política do Rio Grande do Sul; a livraria está sem luz há dez dias e sem poder vender um só exemplar neste acidentado mês de maio.
Perto dali, na Riachuelo, há centenas de livros que devem ter sobrevivido à enchente de 1941 e agora farejado – mesmo no escuro, com uma intuição própria da velhice, da traça, das cicatrizes – a nova cheia do rio. A Riachuelo vive em um intermitente breu desde o começo do mês, mas também ali, alguns metros acima do nível da margem, a localização do espaço impede a chegada da água.
Não me arriscaria, no entanto, a atestar a impermeabilidade dos sebos da rua da Praia, nem das livrarias de novos que abriram por ali mais recentemente. Espero que as coleções tenham escapado, que os móveis possam ser recuperados, levados a algum mezanino ou depósito seco, e que com o sol e o frio que agora sopra esta água que ainda domina partes do Centro recue de vez.
Os que caminhamos todos os dias pelo Centro de Porto Alegre, do Mercado ao Gasômetro, da Matriz aos portões do cais, a esmo pela Alfândega, roubando jornada e minutos pela Uruguai e a rua Sete e já sentimos enorme falta dos lugares e dos rostos de sempre, nós também nos angustiamos com as lombadas e as contracapas ameaçadas pela água.
Anotado em um diário, com data de 5 de julho de 2024.
Leio o Al borde de la boca, de Carmen M. Cáceres, percorro contente o ensaio que engendra dez intuições sobre o mate. Cáceres pensa o mate em sua dimensão argentina, em sua construção, para nada ingênua, como imagem que integra o cânone da cultura nacional; interroga o mate enquanto hábito, cerimônia sempre reiniciada em que o mateador se coloca, por inteiro, na fragilidade breve do tempo presente; questiona os caprichos ao redor da bebida, suas modificações contemporâneas, as tensões que a erva carrega na divisão histórica entre Buenos Aires e o interior do país.
Me interessa particularmente a heterogênea e extensa recolha de citações que atravessa o ensaio: o mate e o matear nos fragmentos da ficção de Juan José Saer, de Sara Gallardo, de Leopoldo Lugones, de Alberto Laiseca, em uma quem sabe apócrifa citação de Borges que logo encontrará o trecho em que Roland Barthes evoca o whisky e o chá, de paralelos goles. Busco, no ensaio, talvez sem encontrar, extensões intuitivas que toquem o ritual do mate nos territórios contíguos: a particularidade uruguaia, a exceção rio-grandense.
Anoto, ainda, sob o efeito do ensaio e do mate que preparo com o que me resta do pacote de erva que trouxe da fronteira: “o mate pode ser perigoso como um pequeno animal à espreita: te distrais e outra cuia está servida às oito horas da noite, como se nada”. E também: “em Iguaçu, mateava pelas manhãs; volto a Porto Alegre, passo a preparar o mate sempre ao final da tarde”.

