‘AS ARMAS SECRETAS’, DE JULIO CORTÁZAR

Por Guilherme Azambuja Castro

Avesso à ditadura peronista, Julio Cortázar deixou definitivamente a Argentina em 1951. Quando publicou seu terceiro livro de contos, As armas secretas, em 1959, portanto, já vivia em Paris há oito anos.

O fato de Paris ser o cenário dos cinco contos do livro parece um sintoma desse processo de desterro. Mas penso, ainda, se Cortázar não teria encontrado nestes contos justamente uma forma de expressar, com as ferramentas do fantástico, as angústias causadas por um existir ainda ambíguo, dividido entre duas nacionalidades: um eu anterior e um eu atual.

Em “Cartas de mamãe”, um conto sobre a culpa, nota-se a presença da Argentina na vida do casal de argentinos radicados em Paris, Luis e Laura. É, na verdade, um passado que volta a perturbar suas pacatas vidas.

Da Argentina, a mãe de Luís envia cartas. Em uma delas, Luis percebe um aparente deslize: a mãe anuncia que o irmão falecido de Luís, Nico, embarcará para Paris. Nico é um assunto evitado entre eles.

Eles vivem uma vida repartida entre o presente parisiense corriqueiro (que os distrai do passado) e o passado argentino (a lembrança de uma culpa). A pacatez da vida que levam é então ameaçada com o “deslize” na carta.

Ocorre que Laura era noiva de Nico quando este morreu, ainda na Argentina, e foi logo após a morte do irmão que Luis e Laura resolveram deixar o país – o que deixavam atrás não era sua terra natal, mas a cena da traição.

O fantástico irrompe na realidade deles quando pensam ter visto Nico de fato chegando na estação de trem, e a aceitação da presença de Nico, agora, não como homem nem como fantasma, mas como um tema vivo na consciência de ambos, parece inevitável.

Já em “As armas secretas”, o fantástico se insinua na personalidade de Pierre. Ele é um francês que vive intensamente, com seus amigos, a libertação da França depois da Ocupação alemã durante a Segunda Guerra. Pierre está apaixonado por Michèle. Mas, estranhamente, ele tem dentro de si a presença de um Outro, o que poderíamos interpretar como a reencarnação de um soldado Alemão já morto, e que fora o abusador de Michèle durante a Ocupação. Michèle vê em Pierre os atos e até mesmo ouve, na voz dele, a música em alemão que o soldado cantava ao abusar dela, e isso a impede de seguir adiante com Pierre.

“As armas secretas” é um conto que fala sobre a permanência do invasor na memória (o corpo) do invadido. A insistente presença da Alemanha nazista na França recém-desocupada é uma alegoria possível.

“Os bons serviços” é talvez o conto mais misterioso e aberto do livro. Madame Francinet vive de um passado a seu ver glorioso e de pequenos serviços domésticos: faxinas em casarões da arrogante burguesia parisiense. Um dia, ela aceita um serviço inusual, porém, como lhe garante o proponente, dentro da lei: deve comparecer ao velório de um conhecido estilista e fingir que é sua mãe. Deve fingir tristeza e desespero. Ela concorda, e no velório reconhece o estilista. É monsieur Bebé, o único a tratá-la, em outra ocasião, com humanidade e gentileza.

Apesar de orientada a fingir, ela acaba sentindo um pesar verdadeiro pela morte do estilista. As cenas no velório, observadas por madame Francinet, sugerem que o falecido mantinha relações amorosas e conturbadas com outros homens, incluindo o proponente do serviço. Mas o narrador se aferra tanto à incapacidade de Madame Francinet em compreender o que está ocorrendo (de compreender sua própria invisibilidade social) que precisamos assumir um papel – como diria o próprio Cortázar – de leitor-cúmplice.  

Gosto particularmente dos contos “O perseguidor” e “As babas do diabo” pela identidade entre os protagonistas. Ambos são, a seu modo, perseguidores.

Em “O perseguidor”, o personagem de Johnny Carter (homenagem de Cortázar à Charlie Parker), alucinado pela droga, explica ao seu biógrafo, Bruno (o narrador), sua concepção sobre o tempo. Para Johnny, o tempo é algo mais interno que externo. Dentro da gente, pode-se viver dias, meses, e até em outro lugar, ele diz, enquanto o corpo apenas vive alguns minutos ao se deslocar de uma parada a outra do metrô.

Bruno escreveu a biografia de Johnny a partir de sua música, entendendo que era possível compreender o homem através da crítica de sua obra. Mas, segundo Johnny, e aí reside o conflito entre os dois, Bruno falhara ao deixar de fora justamente o que não se dispunha a compreender: homem, o Deus particular deste homem, Johnny Carter, o que ele verdadeiramente perseguia ao tocar o sax: uma música tão distante e divina que se aproximar dela era como se aproximar da morte.

Em “As babas do diabo”, Michel, um fotógrafo amador, persegue algo de outra natureza. Em uma fotografia – de uma mulher e um menino, que tirou num parque – busca o acaso que teria salvado uma vida.

Aqui, Cortázar trata da questão da imagem (a fotografia) e da percepção visual do mundo pelo homem. O fantástico surge da ficção que envolve a imagem, ainda que fragmento do real, e da intenção subjetiva (uma condição espiritual de busca, ou mesmo perseguição) de quem a observa.

Ao revelar a foto, Michel percebe um elemento inusitado no cenário. Amplia-a e amplia ainda mais até chegar à conclusão de que, ao clicar, acabou evitando um assassinato. A vítima teria sido o menino. Conclui, então, que o salvou. Mas é uma hipótese, não um fato. Michel teria mesmo impedido um assassinato? Foi a captura da imagem do menino que teria impedido a morte do menino? O que de fato ele vê (procura) na imagem?

No filme Blow-UP, inspirado neste conto, Antonioni traduziu a ideia de que as imagens são constructos, ficções do próprio ato humano de ver.

No filme, depois de ampliar a foto e ver (ou crer que vê) um revólver apontado ao homem junto à mulher, Thomas (personagem baseado em Michel) retorna ao parque e encontra o homem morto entre os arbustos. Ele vai embora. Mas, incrédulo, volta mais uma vez ao lugar, e não há nenhum corpo ali.

Então, voltando para o estúdio, já tendo abandonado a hipótese de ter capturado sem querer o instante de um assassinato, Thomas vê quatro mímicos jogando uma partida de tênis imaginária. A câmera, quando enquadra os mímicos, nos priva de sons, pois o que nos mostra é a própria mímica. Já quando é Thomas a assistir à partida, a câmera fechada em seu rosto, ele escuta, já consegue ouvir – e nós também, porque acreditamos no que ele vê – o som das raquetes.

Saímos do filme como saímos do conto, tomados pela mesma pergunta. No filme, Thomas viu o homem morto ou apenas quis ver um homem morto depois de perceber a forma de um revólver entre os arbustos, na foto? E no conto, Michel capturou o instante de um quase assassinato ou ele quis ter visto o instante, para criar a biografia do menino e poder salvá-lo?

Leia mais do autor em Sepé.

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