‘PORTO ALEGRE BLUES’, DE PEDRO GONZAGA

Por Dani Espíndola

Em 18/05/2023, Pedro Gonzaga, gaúcho radicado em Buenos Aires, professor de escrita criativa, músico, escritor e poeta, lançou o livro-poema, ou poema de uma só estrofe, “Porto Alegre Blues”. Nessa ocasião, eu estava de malas prontas para também me mudar para a capital argentina e, mais do que a ilusão do sonho de viver novos aires e caminhar de forma rotineira sobre as mesmas calçadas dos artistas que me são mais caros, o que de fato eu buscava era deixar no passado a melancolia – talvez amargura seja um disfemismo – que Porto Alegre, com suas gentes, suas ruas, suas histórias, incrustou em minha memória. Um pedido de desculpas antecipado poderia cair bem aqui, não sei. Nem sei ainda se quero ou se é necessário resolver o mal-entendido que se criou entre mim e minha cidade natal. Acredito que o tempo e a distância ajudarão a cicatrizar feridas. Nessa ocasião, a treze dias de embarcar com malas e cuia, eu ainda carecia de elementos corroboradores de minha tese. Daí a minha curiosidade e urgência em ler a nova obra de Pedro. Em estado de desassossego, li, reli e reli e reli Porto Alegre Blues e, numa epifania redentora, obtive o meu próprio aval para vir em paz: foi identificação à primeira lida.

Sim, o poema, como o título sugere, não utiliza subterfúgios de entrelinhas, insinuações, subjetividades ou disfarces para revelar a prostração, o marasmo, o desalento e atimia do eu-lírico. Estão lá os versos “porto alegre costuma matar sem pressa / na calamidade lenta que descola azulejos / numa súbita e tácita agonia”, ou “o sebo não voltará a abrir”, “nenhum lugar me parecerá novo”, “sou aquele que permanece / o que nenhuma catástrofe / houve de mover / este cantante a quem resta um blues”

Acompanhando o eu-lírico em sua caminhada pelo centro (devo dizer “centro histórico”?), reconhecemos as ruas de pedras gastas nascidas a partir do rio-lago-estuário – oceanos de possibilidades -, as personagens que não são as mesmas pessoas, mas são as personas de sempre e é tão fácil recuperá-las ao pensamento: vendedores de jornais, bêbados, prostitutas, donos dos comércios, funcionários públicos, meninos de rua, traficantes, moradores, soldados. A nostalgia é um sentimento controverso – doído e belo – e “toda memória é uma elegia afinal”.

Também a isto presta-se a poesia, quando encontramos nela um sentido capaz de acomodar-se às nossas emoções, sustentando-as, afastando-nos da certeza da solidão. Nada pode fazer o poeta para controlar o destino de sua criação. Digo isso para confirmar que “Porto Alegre Blues” me serviu de cúmplice quando mais precisei, mas, agora, esta nova leitura que faço embalada pela voz rouca de Leonard Cohen enleva-me e liberta-me para uma apreciação mais rigorosa e desprendida, mais atenta à poética de nosso gigante, Pedro Gonzaga. E é isso o que importa, no fim das contas: a experiência da fruição, ainda que seja cedo demais para sair cantarolando “deu pra ti baixo astral vou pra porto alegre tchau”.

Leia mais da autora em Sepé.

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