Por Sinara Foss
Abro o livro “As Irmãs & Outros Causos – Fragmentos de uma mitologia dos pampas”, o segundo livro de Antônio Prates, gaúcho que vive no RJ desde 1974. Mergulho na narrativa.
Ansiosa, amarro meu cavalo crioulo no palanque embaixo de uma frondosa figueira. Meu cusco, fugindo do minuano frio que assobia em nossas orelhas, entra faceiro no mais sortido bolicho de Dom Pedrito, cidade no extremo sul do Brasil, fronteira com o Uruguai, onde nasceu o nosso autor. Chacoalho meu pala e, da porta, vejo o índio velho, pelo duro (1) – que pode ser o narrador dos treze causos desse livro – sentado perto do fogão à lenha, com um cigarro de palha entre os dedos.
Tentando não fazer barulho pra não interromper a contação de histórias me sento na cadeira de palha num canto e meu cusco gira, duas, três vezes antes de deitar ao meu lado, enrolado como uma bolinha.
Fecho os olhos. Os causos me levam para um mundo mitológico, onde os enredos das histórias de Édipo, Laio, Adônis, Hero, Ártemis, Leandro, Perseu, Hipólito e outros que atravessam séculos ganham um novo sotaque, uma nova indumentária, um novo lugar – o do nosso pampa latino. Conhecidos dramas da mitologia grega, enredos de amor, traição, ódio, vingança, medo são vivenciados por personagens gaudérios, aqui em nosso próprio território com a nossa própria linguagem.
Um trabalho desbravador e único.
As cenas narradas por esse exímio contador de histórias se formam em minha mente, me pegam pela mão, me guiam. Entro no cenário, às vezes assisto, quando a narração é em terceira pessoa, e participo em outras, quando são narradas em primeira. Me delicio com a originalidade e a inventividade de cada uma.
Treze causos, são narrados sem que eu veja o tempo passar. Dois deles, A Travessia, e A Escolha são inspirados em contos dos gaúchos Sérgio Faraco e Antônio Brites Jacques respectivamente, o que comprova que o autor Antônio Prates, apesar de estar tantos anos afastado da nossa terra ainda mantem o apego à literatura dos nossos pagos.
Apesar das páginas estarem chegando ao fim, ainda espero, ainda anseio por mais.
O narrador índio velho, pica mais lascas do fumo de rolo e as deposita na palma da mão. Esfrega-as lentamente até esfarelar, cuidando para não cair no chão. Separa a quantia para fazer um cigarro de palheiro. O restante coloca em uma bolsinha de couro, amarrada com tento. Enrola a palha, faz o cigarro depois passa a língua de uma extremidade a outra, uma, duas vezes. Por um momento penso que que vai emendar mais um causo. Mas sei que já chega ao fim.
Minha vontade é de pedir ao índio velho que interceda junto ao seu criador, o autor Antônio Prates, por nós ouvintes/leitores ansiosos, por mais causos, que peça a ele que continue a “mesclar suas lembranças dos nossos pampas com fragmentos de mitologia grega”
No final do último conto, “A escolha”, Prates nos deixou esperançosos. Seu narrador, o contador de histórias, levanta, ajeita o poncho amassado, faz um sinal com a cabeça, leva a mão no chapéu e com a atenção de todos sai pela porta do bolicho dizendo antes de ser engolido pelo frio: “Mas essa é outra história que vate mais competente um dia há de contar”
Ansiando desde já, por mais causos, saio do bolicho. O minuano castiga meu rosto, respiro fundo e fecho o livro.
Notas
(1) Pelo duro – “pelo duro” é um elogio que se refere a um gaúcho que mantém a sua essência, mesmo em tempos de mudanças e modernizações. É um termo que exalta a persistência e a autenticidade do gaúcho, que é forte e inabalável, como o couro curtido pelo tempo. O gaúcho pelo duro é uma resistência viva contra o esquecimento das tradições, um baluarte que mantém acesa a chama da cultura gaúcha

