‘CRISTO PAROU EM ÉBOLI’, DE CARLO LEVI

Por Giuliana M. Seerig

Se é verdade que a literatura italiana é objeto de um interesse crescente no Brasil nas últimas décadas, impulsionada por fenômenos massivos e por boas ondas de tradução, também se pode afirmar que grande parte do que se publicou no século XX ainda está por ser descoberto pelo público brasileiro. O caminho a percorrer para esses encontros literários não é simples: ainda há muito por se traduzir e não é exatamente fácil encontrar edições, mesmo para quem se propõe o desafio de ler no texto original. A obra prima de Carlo Levi (1902-1975), livro-chave para compreender a experiência daquele século, é exemplar também para ilustrar esse cenário editorial. Cristo parou em Éboli (Cristo si è fermato a Eboli – Editora Einaudi, 1945) recebe uma tradução no começo dos anos 50 (Cristo ficou em Éboli, 1952, Editora Mérito) e, algumas décadas depois, outra pela editora Nova Fronteira (Cristo parou em Éboli, 1986). Hoje, é item raro nas prateleiras de sebo, acessível apenas nas buscas digitais.

As razões que podem atrair o leitor para esse título podem ser das mais variadas, incluindo talvez um errôneo parentesco intuído com o escritor Primo Levi, cuja obra, ao contrário de Carlo, possui aqui uma difusão muito mais ampliada. Como muitas narrativas do novecento italiano que tratam do exílio e dos períodos entre e pós-guerras, a obra de Carlo Levi transita em um entrelugar de gêneros e pode ser lida, passando ao largo das discussões mais minuciosas da teoria literária, como um livro de memórias – o plasmar de uma experiência em uma forma que sempre atrai por suas raízes no panorama de um tempo histórico.

Adentramos na Itália de estradas desoladas e quase desertas pela narração do jovem médico e pintor turinense Carlo Levi, condenado a um confinamento que chega à cidade de Gagliano, na região da Lucânia (hoje Basilicata), onde deve estabelecer-se e cumprir sua pena sob o olhar das autoridades locais. Removido de uma cidade não muito distante, no momento em que começava justamente a ambientar-se e a afeiçoar-se à ela, Levi chega mal disposto e melancólico. Na Itália de Mussolini, o exílio – mais precisamente confinamento – colocou aqueles considerados perigosos para o regime isolados dentro dessa Itália lontana. Nos confins daquela Itália fraturada e ainda mais apartada, Cristo ainda não havia chegado, diziam os camponeses (i contadini); Cristo foi no máximo até Éboli, cidade mais próxima, onde ainda alcançava a linha do trem, e ali se deteve: em Gagliano a estrada termina (A Gagliano la strada finisce). Levi condensa no título uma espécie de princípio que permeia toda a obra: o isolamento daqueles que estão fora de rota, fora do tempo e onde mesmo as ideias mais difundidas ainda não alcançaram.

É nesse piccolo paese, palavra que em italiano designa também os pequenos povoados, entre esses camponeses regidos por hábitos de tempos imemoriais e governados uma pequena elite enferma, que ele vai, pouco a pouco, compreender que o tamanho reduzido não arrefece as disputas e as paixões, ao contrário: é em meio a terra árida e quase esquecida pelo tempo que os sentimentos mais elementares se adensam, as disputas se tornam mais ferrenhas, os ódios, mortais. A obra demonstra quão fundante é a oposição entre o Norte e o Sul, o citadino e o rural em uma Itália dividida, onde não só a religião pouco toca como nem mesmo o fascismo reinante naquele tempos é capaz de modificar substancialmente as velhas estruturas ou reorganizar a vida social.

A recomendação do romance-memória de Levi, no entanto, não se esgota apenas pela relevância dos temas que emolduram a narração – que parecem reatualizar-se e ter ainda mais a dizer para os tempos que correm – nem tampouco pela importância desse livro no conjunto daqueles que formam o cenário literário da segunda metade daquele século na Itália. Para além da moldura, a beleza de ler Cristo parou em Éboli está nas minúcias, especialmente no desenrolar do posicionamento do narrador diante dos acontecimentos, a princípio absurdos, primitivos ou sem sentido, que vão adquirindo uma lógica própria. É bela, sobretudo, a agudeza do seu olhar que destaca dos camponeses gestos e ações – o beijo de súplica nas mãos do médico citadino em busca da salvação, o ritual de espera do correio na praça pública, os tecidos negros que cobriam as portas das casas, os longos rituais de luto. A primeira história de Cristo parou em Éboli é, pois, a história do intelectual judeu em exílio; a segunda talvez possa ser resumida como o transcorrer da relação que estabelecemos com os lugares onde habitamos, a modulação do olhar e as estratégias de sobrevivência do espírito em tempos sombrios. Carlo Levi conduz o leitor em uma narração tecida em um tom distanciado, com o ritmo não do registro mas da reminiscência, como em um conteúdo cristalizado pelo tempo. Guiado pela sensibilidade humana e pictórica de um estrangeiro em seu próprio país, o leitor estará percorrendo, sem uma linha de desperdício, uma rota incontornável para compor o grande mosaico da literatura italiana contemporânea.

Leia mais da autora em Sepé.

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