Por Maria da Graça Rodrigues
Todo autor diante da folha em branco se depara com a questão primeira e fundamental: encontrar a voz narrativa que usará para contar sua história.
Pois neste seu romance Deus na Escuridão, Valter Hugo Mãe ousa alto em dar a voz a Felicíssimo, um personagem com dificuldade cognitiva. E acerta.
Felicíssimo é um ser humano formado de pura inocência, poesia e delicadeza. Ali na ilha da Madeira, na pequena comunidade do Buraco da Caldeira vive ele dentro de sua particular visão de mundo, não vê maldade em nada e em ninguém, todos em seu entorno são perfeitos, Deus é perfeito, as mães se assemelham a Deus na infinita bondade, os amigos, a vizinhança. Nem mesmo a exploração aos pobres por parte da baronesa e seu capitão lhe causam revolta, apenas constata essa realidade e segue adiante querendo bem a tudo e a todos.
Sua capacidade de amar se potencializa quando do nascimento do irmãozinho que vem à luz com um defeito físico e daí ser chamado de Pouquinho.
Felicíssimo eleva Pouquinho ao nível do divino, o chama de o Santinho, toma para si a obrigação de defendê-lo contra qualquer adversidade que possa surgir diante do irmão tão frágil.
O tempo passa, os amigos de infância seguem a vida, a maioria sai da ilha buscando no continente melhores condições de vida.
Pouquinho, objeto de tanta preocupação por parte de Felicíssimo, acaba evoluindo por conta própria, casa com uma bela moça e se estabelece numa confortável residência.
Felicíssimo poderia continuar sua vida singela para todo o sempre, poderia sim, não fosse uma cruel dose de realidade alcançar até mesmo uma alma pura como a sua.
Nosso protagonista cai das nuvens, desmorona. E lá no fundo da escuridão deverá encontrar a maneira para subir, retornar ao seu mundo iluminado pelo sol e pela beleza daquele pedaço de terra cercado de mar que era tudo o que lhe bastava para continuar amando e sorrindo a todos desde a manhã até o anoitecer.

