Por Daniela Kern
Apenas recentemente fui introduzida à obra de Ágota Kristóf (1935-2011), escritora húngara exilada na Suíça. Lembro até da primeira menção a ela que encontrei, feita por Elvira Navarro, que a aproxima à literatura de Aurora Venturini. Fiquei curiosa e assim que soube que a brevíssima autobiografia de Kristóf (A analfabeta: um relato autobiográfico. Tradução: Prisca Agustoni. São Paulo: Editora Nós, 2024) havia sido publicada em português, corri para lê-la. E li antes de ler o outro lançamento de Kristóf em português, a Trilogia dos gêmeos (O grande caderno; A prova; A terceira mentira. Tradução Diego Grando. Porto Alegre: Dublinense, 2024). Pois quero comentar brevemente sobre isso: a leitura da Trilogia certamente ilumina a da autobiografia, e vice-versa. Sendo assim, vou comentar aqui A analfabeta tendo em mente também a Trilogia, pois as zonas de contato não são poucas.
A começar pelo estilo, conciso e direto, ponto comum na ficção e na escrita memorialística da autora. Na Trilogia os protagonistas gêmeos vivem a Segunda Guerra, uma realidade dura que Kristóf conheceu ela mesma, em pequena. Lemos em A analfabeta que desde cedo ela se revelou uma contadora de histórias, e de fato sua imaginação fabuladora é impressionante. Na página 12 de A Analfabeta ela afirma que escrever é uma maneira de lidar com a dor da separação de pais e irmãos, e logo lembro que em O grande caderno, primeiro livro da Trilogia, os gêmeos põem em prática um detalhado treinamento para endurecimento emocional e desapego após terem sido separados da mãe em função da Guerra. A ideia de que línguas estrangeiras podem ser línguas inimigas também é forte tanto em A analfabeta quanto na Trilogia. No primeiro volume da Trilogia os gêmeos falam a língua natal (húngaro), convivem com estrangeiros invasores que falam outra língua (alemão) e depois, com o fim da Guerra, precisam aprender uma terceira língua, a dos vencedores (russo). É assim, como língua inimiga, que Ágota Kristóf irá encarar o francês que precisará aprender quando se exila na Suíça. Em ambas as obras a experiência da fronteira é traumática. Na Trilogia um dos gêmeos cruza a fronteira, algo que só foi possível pois um homem morreu antes dele tentando cruzá-la. Na autobiografia, Kristóf escreve sobre o destino potencial de quem cruza a fronteira ilegalmente: a prisão ou a morte. Sobre o saldo de seu próprio cruzamento de fronteira ela escreve em A analfabeta:
“Deixei na Hungria o meu diário com a escrita secreta, assim como meus primeiros poemas. Deixei lá meus irmãos, meus pais, sem avisá-los, sem nem me despedir deles, sem sequer dizer até logo. Mas principalmente, naquele dia, naquele dia de final de novembro de 1956, perdi definitivamente meu pertencimento a um povo” (p. 32-33).
Depois de contar, com muita brevidade, como de fato se tornou escritora, Kristóf conclui A analfabeta com novas reflexões sobre o aprendizado do francês, sobre os anos em que ainda era incapaz de lê-lo. Um livro pequeno, denso, que, lido em conjunto com a Trilogia, como propus aqui, adquire ainda mais força.

