‘A MORTE DA MÃE COMO CENTRO DOS RELATOS EM ‘DIÁRIO DE LUTO’ E ‘LILI: NOVELA DE UM LUTO’

Por Dani Langer

Durante a escrita de meu trabalho mais recente (o romance Deságua, lançado pela editora Zouk neste ano), percebi que minha biblioteca começou a ganhar uma nova configuração. Sempre mantive a organização dos livros da maneira mais simples possível, tanto por uma questão de espaço quanto de praticidade: separo as prateleiras por prosa, poesia, escrita criativa e não ficção. Em cada uma das categorias os livros estão reunidos por ordem alfabética do sobrenome de suas autorias. A partir de 2014, quando iniciei a pesquisa do romance, vi surgirem pela primeira vez em minha vida de leitora pequenas coleções temáticas: livros com o elemento água, livros que abordam a saúde mental, as relações entre irmãos, a cidade e os deslocamentos urbanos na literatura, alguns volumes sobre o luto — temas que de alguma forma conversam com o romance. É da pequena coleção sobre perdas e ausências que selecionei dois títulos como sugestão de leitura para essa edição da Sepé. São eles, Diário de luto, de Roland Barthes, e Lili: novela de um luto, de Noemi Jaffe. Vale lembrar que essa é uma seleção que obedece a um critério objetivo que guarda em si alguma subjetividade: gosto de sugerir livros que fazem parte da minha biblioteca, livros que estão sempre a mão e que volta e meia os consulto.

“essa incompreensível contradição entre a lembrança e o nada”

(Roland Barthes, Diário de luto)

Diário de luto é, como diz o título, uma série de anotações diárias que o ensaísta Roland Barthes começou a produzir no dia seguinte ao da morte de sua mãe em 25 de outubro de 1976, mantendo os registros até setembro de 1979. A reunião dessas notas compõe uma edição fragmentária que aborda a devoção, a dor e a obsessão de Barthes pela figura ausente da mãe. Os originais são compostos por 330 fichas preparadas pelo próprio autor: folhas de papel standard cortadas em quatro, em que registrou suas emoções, sentimentos e impressões face do luto da mãe, Hemiette Binger, falecida aos 84 anos.

A respeito da forma, as entradas dispersas bordam arabescos em torno do vazio deixado pela morte. Em 17 de novembro de 1976, Barthes registra: “Luto: região atroz onde não tenho mais medo”. No dia seguinte, retoma e amplia a reflexão: “Não manifestar o luto (ou pelo menos ser indiferente a isso), mas impor o direito público à relação amorosa que ele implica” (grifos do autor).

Apesar dos temas em oposição, durante a leitura de Diário de luto pensei diversas vezes em Fragmentos de um discurso amoroso (1977). Pela forma intimista com que Barthes nos conduz pelos ensaios, pondo-me em suspensão em relação ao gênero do livro que eu tinha em mãos: diário ou ensaio? Isso porque mesmo em dolorida intimidade, as notas vão além da reflexão óbvia sobre o luto e se expandem para um pensar sobre a própria noção de gênero literário (no caso, o diário) e das implicações do tecido excessivo da linguagem. Voltando à imagem do bordado, temos uma escrita lacunar e descontínua que além de rodear o vazio também o encena. “Não quero falar disso por medo de fazer literatura — ou sem estar certo de que não o será —, embora, de fato, a literatura se origine dessas verdades”. O que Roland Barthes nos entrega em Diário de luto é uma escrita da ausência, escrita-lápide, frases-epitáfios.

Roland Barthes é um ensaísta que ao longo de sua obra subjetivou os escritos íntimos — a presença da primeira pessoa do singular em seus ensaios —, adotando o fragmento e a notação como estilo. No caso de Diário de luto, seu conteúdo se desenvolve sob o signo da morte e se encaminha em direção à própria morte. Tanto a morte passada (da mãe) quanto a morte futura (do próprio Barthes que viria a falecer poucos meses após cessarem as notas), pairam sobre o texto.

“As coisas revestidas de morte são também as coisas revestidas de vida”

(Noemi Jaffe, Lili: novela de um luto)

Assim como nos diários de Roland Barthes, Lili: novela de um luto, de Noemi Jaffe, tratará sobre a ausência causada pela morte da mãe. Porém, se nas anotações do ensaísta francês partíamos do estado absoluto da falta (já não há Hemiette Binger desde a entrada inicial), na narrativa de Jaffe primeiro adentramos na atmosfera da partida. Por um lado, não há mais Dona Lili, por outro, seu corpo continua lá.

“No dia anterior, quando ela ainda não estava morta, mas quase, eu aproximava meu ouvido do seu peito e ouvia a respiração. Era diferente.

É diferente estar quase morta de estar morta mesmo. É diferente, e só sei disso agora que ela morreu”.

A maneira com que a narradora expõe a rotina desde o adoecimento da mãe, bem como seus sentimentos, proporciona que a elaboração de luto se transfira para a pessoa leitora. Tudo é pessoal, tudo é singular. Adentramos na intimidade, nos pormenores dos cuidados, bem como aqueles dos ritos de despedida. Através do empenho na linguagem, aquilo que é singular se torna universal. E aqui gostaria de pontuar que esta é, embora partindo de um fato e de pessoas reais, uma obra de ficção. Portanto, o engendramento da narrativa é de natureza distinta daquele de Diário: a ausência em Lili se dá pela construção poética que coloca em marcha o texto literário.

Dona Lili é uma grande personagem. Tem noventa e três anos, sobrevivente do holocausto, viúva e mãe de três filhas. Nem sua idade e uma doença que vinha se estendendo diminuem a dor causada por sua perda. A banalidade da causa da morte, “uma infecção nos pés”, acrescenta mais um elemento ao sentimento de descrença com que a filha se encontra. Com uma honestidade perturbadora, Noemi Jaffe não se furta a lançar uma pergunta que pairará sobre o texto: como é possível que aquela que sempre esteve presente não exista mais?

Narrativas sobre o depois

Com todas as suas diferenças, de época, gênero e estilo, tanto Diário de luto quanto Lili: novela de um luto são obras que ao falar de perdas definitivas nos levam a encarar a vida. Pois é tarefa de quem vive lidar com o residual, material e imaterial, do que fica depois da morte.

Diário de luto, de Roland Barthes (tradução: Leyla Perrone-Moisés)Editora Martins Fontes (Coleção Roland Barthes)

Lili: novela de um luto, de Noemi Jaffe Editora Companhia das Letras

Leia mais da autora em Sepé.

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