‘A TEORIA DA BOLSA DA FICÇÃO’, DE URSULA K. LE GUIN

Por Rochele Bagatini

A estória não quer ser história. A estória,
em rigor, deve ser contra a História.
João Guimarães Rosa, Tutameia

O livro A teoria da bolsa da ficção chegou até minha casa pelas mãos do meu companheiro que, entre outras coisas, é livreiro e conhece minha paixão pela criação literária e pelos mundos imaginados de Ursula K. Le Guin. Chegou numa ecobag, com outros livros selecionados por ele para nós. Só abri depois de retirá-lo do meu recipiente de livros, a estante, quando o grupo de estudos do qual faço parte decidiu estudá-lo, um tempo depois do exemplar chegar aqui, no meu invólucro de concreto. Minha casa, como qualquer casa, comporta bolsas com palavras e coisas, é um saco de pessoas, plantas, animais visíveis, e animais invisíveis ao olho humano. Conto essa história (ou estória, como chama a Ursula) como se tivesse recebido esta bolsa chacoalhando no tempo e no espaço, desde a publicação do ensaio em 1986, e agora passo adiante.

No Brasil, a bagagem chegou pela editora N-1 que nos fornece um pacote com outros bolsos carregados de utensílios valiosos para entender a Teoria e a literatura de Le Guin, além do ensaio que dá título ao livro. O primeiro deles é uma introdução de Juliana Fausto, que nos convida a conhecer um pouco de Aways Come Home, inédito em português, livro de ficção lançado à época da escrita do ensaio, e como ele se torna uma fonte da Teoria da bolsa da ficção aplicada. Juliana introduz a bolsa de Ursula ouvindo Música e poesia dos Kesh (que acabou sendo minha trilha durante as leituras e a escrita deste texto). Este álbum sonoro, em forma de fita cassete, que faz parte do livro, pode ser ouvido em qualquer plataforma de música, e contém os sons de um “povo que talvez tenha vivido daqui a muito muito tempo…” num tempo “futuro-pretérito” onde costumam se situar as obras de Le Guin. Assim como Aways Come Home, a Música e poesia do povo Kesh não é uma simples compilação de coisas de seu povo, mas um “tipo de celebração”, uma “arqueologia do futuro”, diz a autora. Aways Come Home recusa um rótulo de gênero, é uma “celebração” de poemas, mitos, relatos, narrativas em primeira pessoa, desenhos, mapas, receitas culinárias, registros de sons… que compõem a grande bolsa do mundo dos Kesh.

No compartimento principal temos o ensaio de Le Guin que dá título ao livro. Ela argumenta que em regiões temperadas e tropicais, durante o período pré-histórico, a alimentação era de 65 a 80% coletada, apenas no extremo Ártico a carne era alimento-base. Segundo Ursula “nós nem mesmo trabalhamos muito nisso — muito menos que os camponeses escravizados nas plantações […], muito menos que os trabalhadores pagos desde que a civilização foi inventada. A pessoa pré-histórica mediana podia viver bem com cerca de quinze horas de trabalho semanal”. Então por que nós demos importância fundamental às histórias do homo que caçava mamutes? Pelas especulações de Ursula sobrava bastante tempo para fazer outras coisas, então alguns que não cuidavam de crianças, construíam, cantavam, cozinhavam, compunham poemas, se aventuraram a caçar mamutes, voltando com carne e estórias. Ursula acredita que “não foi a carne que fez diferença mas foi a estória. Essa história não só tem uma Ação, como tem um Herói”. Então todos aqueles que antes cuidavam de bebês e doentes, ou estavam fazendo outras coisas, como coletar aveia selvagem em cestos, entram para a História na medida que estão “colocados a serviço do conto do Herói”.

Em seu ensaio, Ursula cita A criação da mulher, de Elizabeth Fischer, dizendo que o primeiro aparato cultural foi possivelmente um recipiente para guardar produtos coletados, e não um osso grande e pontudo que servia para cometer homicídio, como no início do filme do Kubrick, 2001. Parece bem convincente que ao mesmo tempo, ou antes até, de produzirmos a ferramenta que tira a energia para fora, “nós fizemos a ferramenta que traz a energia para casa”. É uma teoria plausível que o suporte para carregar excedentes e outros objetos tenha sido o primeiro artefato cultural produzido pelos humanos, é o que Fischer chama de “A teoria da bolsa da evolução humana”.

Ursula reflete o quanto ela não se encaixa na humanidade representada pela capacidade de fazer uma arma para matar, “se é humano colocar algo que você quer, porque é útil, comestível ou bonito, numa bolsa, numa cesta, ou num pedaço de casca ou numa folha enrolada, ou num ninho tecido com seu próprio cabelo, ou com que você tenha à mão, e então levá-lo para casa com você, sendo a casa outro tipo de bolsa ou saco, um recipiente para pessoas, e então mais tarde tirará-lo e comê-lo ou compartilhá-lo ou armazená-lo para o inverno em um recipiente mais sólido ou colocá-lo num patuá ou no altar ou no museu, o lugar sagrado, o espaço que contém o que é inviolável, e depois, no dia seguinte, provavelmente voltar a fazer o mesmo – se isso é humano, se é isso que é preciso, então afinal eu sou humana.” O grande problema é que nos envolvemos com a história do assassino, estamos entremeados a ela, e assim vamos “acabar junto com ela”. Ursula ressalta a urgência na busca pela natureza, pelas estórias não contadas, estórias sobre a coisas em que se põem coisas dentro, ao invés das histórias de espadas e bombas.

O projeto gráfico de Júlia Porto traz uma costura na borda externa e inferior da página, de duas em duas, no ensaio principal, formando quatro bolsos que contém um cartão com impressão de obras da artista Gê Viana. As ilustrações contém colagens, desenhos, sementes e folhas, imagens históricas, imagens comuns…, e suscitam reflexões sobre a construção da iconografia brasileira. É um convite tanto para especular como de fato viviam os povos originários para além da história hegemônica, como também para contar as estórias de como vivemos, habitamos e o compartilhamos o território brasileiro. Talvez até, imaginar possibilidades de mundos futuros na América.

O livro encerra com o posfácio de uma das tradutoras, Luciana Chieregati, contando que a tradução se fez colaborativa durante o período da pandemia como medida de compartilhamento das ideias já conhecidas de Le Guin. A ideia da tradução nasce das idas frequentes ao supermercado com sua bolsa de coletar mercadorias, as saídas possíveis em meio ao lockdown. Ursula queria que seus pacotes viajassem, “quero que estejam acessíveis, quero edições em papel baratas, quero que sejam baixados continuamente em 40 línguas diferentes, quero que sejam lidos, quero que sejam discutidos, quero que as pessoas choram sobre eles, quero dissertações ilegíveis escritas sobre eles, quero que as pessoas se zanguem com eles, quero que as pessoas usem”, e chegassem de forma acessível, por isso, muitos de seus textos podem ser encontrados facilmente na internet.

A teoria da bolsa da ficção é um patuá, um “portal” como diz a tradutora, um convite para que possamos abrir nossas bolsas, espiar em outras, imaginar colaborativamente novas estórias, nas palavras de Chieregati “convida-nos a praticar o pensamento como gesto materialista e exercício de imaginação que possibilita que mundos passados, presentes e futuros se fundam em tempos e espaço que ainda não conhecemos”. Incita nosso imaginário colonizado de imagens de homens em guerra, a “pensar fora do tempo e espaço tecno-heroico, pensar fora da lógica do sujeito constituído pelos parâmetros da modernidade”. Assim podemos repovoar o imaginário, criando “estratégias para prestar atenção e aprender a ler os sinais que nos habilitem, a imaginar desde uma perspectiva decolonial e multiespécies”, e colocar à disposição nossas bolsas de estórias, estórias estas que vivemos juntas sobre a mesma terra que compartilhamos há muito muito tempo.

Leia mais da autora em Sepé.

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