Por Vera Ione Molina
Vozes da Ancestralidade e Segredos da Rua Mundo, Editora Metamorfose; Quatro Mulheres e O enigma por trás do muro, Editora Bestiário são as novelas que antecedem “A sombra do mal”, todas escritas depois dos setenta anos, como a autora, Neusa Demartini, gosta de destacar. Conheci Neusa no início dos anos noventa, em uma oficina de literatura para a infância, ministrada pela escritora Zahyra de Albuquerque Petry.
Ela andava então às voltas com as duas universidades onde lecionava nos respectivos cursos de jornalismo e havia escrito uma peça de teatro que fora premiada. A professora estava interessada em diversificar sua escrita, totalmente voltada para artigos acadêmicos. Fiquei décadas sem saber notícias até que a procurei pelas redes sociais. Ficamos amigas e fui lendo, impressionada, sua produção literária.
A sombra do mal é a quinta novela da Neusa Demartini. Inova na forma e na estrutura, não simplesmente por experimentalismo, mas como projeção da complexa personagem central. Olívia é uma mulher de muita idade, trancafiada numa clínica geriátrica, sem o saber, onde repassa sua vida desde a infância com a cuidadora da vez e solta as personagens de sua memória em cenas inesquecíveis, que vão urdindo a trama. Personagens fortes, todos palpáveis e vívidos, passam pela fruição do leitor, até chegar à família de poderosos traficantes bolivianos com sua riqueza e vida espetacular e assustadora, à qual pertence o marido de Olivia. A sombra do mal, Neusa Demartini, Editora Bestiário, 2024.

