Por Lucio Carvalho
Billy Parham não tem dezessete anos ainda. Tendo vivido desde sempre no rancho da família, ele não tem muita experiência de vida também. A Segunda Guerra ainda não eclodiu, está eclodindo, e seus ecos chegando ao solo norte-americano, mas o que Billy precisa viver é o mesmo que fosse a guerra, seu desespero e ansiedades generalizados e um tempo no qual o instinto de sobrevivência é imperioso, ainda mais que em meio a um mundo que parece não ter mais muito em conta (ou desprezar) o menor indício de racionalidade.
Numa noite de inverno, uma loba chega à fazenda da família de Billy e é capturada numa armadilha colocada por ele e seu pai. Ferida, Billy assume para si a missão de executá-la, porém não consegue desferir o tiro de misericórdia e, movido por um instinto de cuidado, decide levar o animal aos desertos do Arizona e além da fronteira, no México, de onde ela parece ter vindo.
É interessante essa proveniência da loba, pois no lugar onde eles vivem os lobos já estão praticamente extintos. Quando eles aparecem, é por terem empreendido uma longa viagem em busca de alimento mais fácil, ou seja, os animais domesticados. A loba mexicana é também um contraste do aspecto civilizatório entre os dois países. Mais que isso, é o espírito de uma ancestralidade que vai se perdendo que o jovem se incumbe de cuidar. A loba, de certo modo, é como fosse a alma do cavaleiro, que ele mesmo pensa em salvar na sua vertiginosa travessia ao México. Enquanto isso, durante a sua viagem, outra espécie de violência se precipita em direção ao seu destino: o rancho da família é atacado por salteadores e seus pais são assassinados. Sobrevivem apenas o irmão mais novo, Boyd, e o cão da família.
Mas é nesta primeira parte do livro, na viagem em que ele se acompanha pela fera, que se encontram, talvez, algumas das passagens mais belamente descritas daquela natureza árida subitamente visitada por momentos de uma placidez que Cormac McCarthy colheu, parece, diretamente das mãos de Deus. Estas cenas certamente foram possíveis porque seu protagonista tem um olhar virginal para o mundo, desconhecendo tanto o caráter ambíguo dos homens quanto a maldade declarada. O resultado é que Billy vai se descarnando em sua jornada, em suas travessias pela fronteira, desamparado e tendo de cuidar do irmão mais jovem, enquanto não se esquiva de encontrar criaturas com toda a espécie de intenções em seu caminho, de tutores a assassinos.
Nas solitárias noites em que precisa dormir ao relento, encarando placidamente a severidade do crescimento, Billy vive com a imaginação atacada por necessidades elementares absurdas, como o sono, a dor e a fome. Ao ver-se cavalgando sob os céus estrelados do Arizona em busca dos cavalos roubados à família e do irmão perdido, é um personagem que pouco diz de si mesmo e se revela um gigante à leitura, especialmente porque McCarthy tem a dosimetria perfeita entre permitir o silêncio narrativo ou em induzir o leitor à reflexão. Já não há o mais o garoto e seu sonho impreciso, mas o homem que resulta de uma vida irrecusável, a saber, a única disponível para ele.
A Travessia é o segundo volume da “Trilogia da fronteira”, integrada também por Todos os belos cavalos e Cidades da planície. São livros que a Alfaguara reeditou no Brasil após um longo período em que as antigas traduções não estiveram disponíveis. Cormac McCarthy foi um escritor norte-americano falecido em 2023.

