‘NO MAR, VEREMOS’, DE NEI DUCLÓS

Por Sidnei Schneider

A partir de versos da atualidade, vamos tratar de algo que certas artes são capazes de causar no âmbito do sensível. Mesmo Jorge Luis Borges, cuja visão de mundo sobrepunha a idealidade à primazia do real (em outras palavras, conforme o rasgo de Millôr Fernandes, aquela que troca o fato pela versão), era capaz de pressentir a importância do que chamava de “sentimento épico”. Evidente que este percorre a literatura universal, das histórias de Gilgamesh à Ilíada, do Antigo Testamento às sagas nórdicas, de Os lusíadas às tragédias de Shakespeare, mas também é verdade que hoje poucos escritores alcançam criar situações que favoreçam o seu afloramento, quase sempre por falta de interesse na História atual ou pregressa, diminuindo as opções do público. “De certo modo, as pessoas estão famintas e sedentas de épica. Sinto que a épica é uma das coisas de que os homens necessitam”; foi o cinema, mais do que qualquer outro gênero, que “abasteceu o mundo de épica”; através de determinados filmes, “imagino que [as pessoas] resgatem o sentimento épico”, disse o argentino na conferência O narrar uma história (Jorge Luis Borges, Esse ofício do verso, São Paulo: Cia das Letras, 2000).

Se os poemas épicos fundadores tendem a ser extensos, o sentimento épico pode estar em poucos versos, o que não o inviabiliza no poema curto. Lembremos da antiga frase latina ressuscitada por Fernando Pessoa, que alguns juram ser de Caetano Veloso, prenhe desse sentimento e transcrita por Plutarco (c. 46 d.C.-120 d.C) em Vida de Pompeu: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Ou dos antigos fenícios, para os quais a navegação era sinônimo de vida, que diziam em voz alta, ante a própria morte por naufrágio, o verso “Mãe de Cartago, devolvo o remo”, objetivando que a cidade de Tiro, a referida Mãe de Cartago, o cedesse a outro navegador (se isto não for bela criação de quem o conta, Rudyard Kipling). Ou de Enéas, o herói da Eneida, do poeta Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), a encorajar os companheiros, após seus barcos enfrentarem violenta tempestade no Mediterrâneo, com o verso “Talvez um dia será agradável recordar essas coisas” ou “Talvez isto com gosto inda nos lembre”, conforme a tradução seja de Tassilo Orpheu Spalding ou Odorico Mendes. Verso que o povo brasileiro traduziu melhor pelo dito “ainda vamos rir de tudo isso”. Ou quando Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, quebrando a prerrogativa masculina de tratar da épica, diz de Silvério dos Reis, que este receberá, entre outras compensações pela traição, uma “comenda para o pescoço”, o que recorda a quem lê a forca que envolveu o de Tiradentes.

Pois bem, é o tipo de fruição estética, entre múltiplos outros modos de expressão, que nos oferece Nei Duclós, poeta de Uruguaiana há muito radicado em Florianópolis, em No mar, veremos (São Paulo: Globo, 2001), título que por si mesmo repercute algo de épico, feito um poema de verso só.

TIRADENTES

Estamos frente ao cadáver
de Tiradentes, homem e mártir

Tambor partido da liberdade
que o tempo não devora
e o pó não cobre

Sereno herdeiro da guerra
primogênito da pátria

Arcanjo anunciador
firme senhor da morte
irmão de viagem
que na luta
repartiu o corpo
como um pão enorme

Não vamos nos estender, mas note-se o trabalho com a sonoridade, desde os versos iniciais bipartidos em “frente/ Tiradentes” e “cadáver/ mártir”. Seguem-se a estas quatro palavras, já marcadas pelo som da letra erre, várias outras com a mesma singularidade, propiciando o tom solene e grave requerido por este herói “que o tempo não devora/ e o pó não cobre”. Senão vejamos, as palavras “tam-bor, par-tido, liber-dade, co-bre”, suavizadas por um instante pela expressão “sereno herdeiro”, reatam-se em “guer-ra/ pri-mogênito/ pá-tria/ ar-canjo/ anuncia-dor/ fir-me/ se-nhor/ mor-te/ ir-mão/ repar-tiu/ cor-po/ enor-me”. Acrescente-se a força explosiva e afirmativa do /p/ em “tambor partido/ primogênito da pátria/ pão”, aliada a vogal aberta uma-atrás-da-outra de “devora/ pó/ cobre”, que ecoa, no final, em “enorme”, entre outras similaridades fônicas.

O arcanjo bíblico, anunciante da boa nova, e, no caso, de um porvir almejado, remete igualmente, pelo menos para este comentarista, ao título do filme de Luis Buñuel, O anjo exterminador, em que representantes da classe dominante não conseguem sair do lugar em que estão, apesar deste, a sala de um palacete, não estar trancado, lembrando os interesses que “tinham” de assassinar Tiradentes, violentamente, para se manter. Se Cristo repartiu o pão como representação do seu corpo, no poema de Nei Duclós se estabelece uma inversão de fundo sentido épico, é o próprio corpo o que Tiradentes reparte na luta, espalhado pelos seus algozes entre o Rio de Janeiro e a Vila Rica, a representar um pão futuro, de pátria sem fome ou miséria, por desenvolvida e soberana. Alimento oferecido à Nação através da entrega da sua vida, e, além de tudo, de feição enorme. Enorme como o gesto deste “firme senhor da morte”, capaz de encarar os que o enforcaram e dizer que se dez vidas tivesse, as dez ele daria.

Fábio Lucas, crítico literário nascido em Minas, apontou há muito que a historiografia que se baseasse, sem elevado distanciamento crítico, nos Autos da Devassa, produzidos pelos interesses mesquinhos da Justiça de Maria, a Louca, tenderia a erros significativos sobre Tiradentes e a Inconfidência Mineira. Entre as nações, não são todas que possuem herói desta envergadura, capaz de galvanizar a liberdade e a independência no âmbito da cultura do seu país, nem é qualquer poeta que consegue expressá-lo em versos.

Leia mais do autor em Sepé.

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