‘O CRIME DO BOM NAZISTA’, DE SAMIR MACHADO DE MACHADO

Por Antônio Hohlfeldt

Ele já recebeu o Prêmio Açorianos, em 2017, pelo romance Homens elegantes (Rocco), mas o mesmo prêmio havia sido alcançado pelo escritor, enquanto artista gráfico, nos anos de 2009, 2013 e 2014, por outros títulos, de que depois falaremos. Agora, em 2024, Samir Machado de Machado acaba de receber o Prêmio Jabuti, por “O crime do bom nazista” (Todavia), na categoria de “romance de entretenimento”. Certamente o fato de não ter sido premiado enquanto um grande romance não deve preocupar o escritor. Se este mais recente tem apenas 122 páginas, a série formada por Homens elegantes e Homens cordiais (Rocco, 2021) tinha, cada um dos volumes, 574 e 380 páginas cada, para não falar em Tupinilândia (Todavia, 2018), com 446 páginas!

Conheci literariamente Samir Machado de Machado enquanto organizador de uma série de cinco volumes genericamente denominados de “Ficção de polpa” (Não Editora, 2008 a 2012), reunindo textos curtos de ficção daqueles gêneros para os quais, tradicionalmente, os críticos literários torcem o nariz: ficção de horror, narrativa policial, ficção científica, histórias góticas, etc. Eram livros de bolso, cujas capas e projeto editorial emulavam cuidadosamente publicações das primeiras décadas do século XX, tanto norte-americanas quanto brasileiras (no caso nacional, Série Amarela, da Editora Globo), buscando a popularização da literatura.

Para se ter uma ideia da recepção destes volumes, só o primeiro, dedicado a contos de horror, alcançou mais de três edições; cada volume tinha entre 150 e 200 páginas, com textos de jovens escritores brasileiros, especialmente sul-rio-grandenses, mas não se negava a incluir algum autor estrangeiro reconhecido no gênero de cada volume, constituindo o quê, em tom de blague, os editores denominam de faixas bônus.

Desde aquelas coletâneas, em que Samir Machado de Machado atuou enquanto principal organizador mas não deixou de participar enquanto autor, até o romance recém premiado e já traduzido em outros países, há uma constante, uma espécie de programa literário, ou melhor, uma estética definida pelo autor: ele recria e atualiza gêneros antigos e normalmente desqualificados pela chamada crítica séria, de modo que, por trás da brincadeira e na aparente irresponsabilidade e leveza do relato romanesco – romances de aventuras, a gente dizia, quando adolescente, incluindo na etiqueta desde a série de livros de Edgar Rice Burroughs, sobre Tarzan, até narrativas de Emilio Salgari e Karl May, que constituíam a conhecida Coleção Terramarear da Cia. Editora Nacional, idealizada por Monteiro, ou os inesquecíveis volumes da Editora Globo, idealizados por Mansueto Bernardi e Erico Verissimo. Foi assim que todos nós, adolescentes dos anos 1940 a 1960, nos acostumamos a ler, incentivados, ainda mais, pelos quadrinhos da EBAL – Editora Brasil América Limitada, que transformava os clássicos da literatura mundial e da literatura brasileira em gibis que se compravam semanalmente nas bancas, em especial, nas sérias de Edições Maravilhosa e Álbum Gigante.

A estréia propriamente dita, deu-se em 2001, ainda pela Não Editora, com a novela “O professor de botânica”. Desde este relato, Samir Machado de Machado escolherá a narrativa caracteristicamente detetivesca como base para todo o seu projeto literário. Mais que isso, acrescenta às características do deciframento de um caso – assassinato, desaparecimento, roubo, etc. – um texto claramente vinculado à paráfrase e à paródia, reescrevendo, de maneira crítica e engraçada – no mais das vezes irônica – enredos bastante complexos que ocorrem em ambientes inusitados para este tipo de narrativa – e aqui encontramos outra de suas inovações.

Para se compreender as fontes de que bebe o escritor é preciso lembrar que, paralelamente a todo o seu trabalho de criador ele tem atuado enquanto tradutor de clássicos como O mundo perdido, de Arthur Conan Doyle, As minas do rei Salomão, de Henry Ridder Haggard ou O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Mais do que simplesmente traduzir, contudo, Samir Machado de Machado entrega ao leitor um trabalho meticuloso, cheio de notas de rodapé, em que discute inclusive os critérios utilizados para cada tradução, além de ensaios introdutórios sobre estes gêneros que constituem, diga-se de passagem, tema de seus estudos de Pós-Graduação em Literatura quando, além de criar textos de ficção, apresenta ensaios aprofundados sobre as características de tais narrativas.  

Em O professor de botânica uma simples saída a campo do professor com um aluno se transforma num problema policial, quando o mestre desaparece. O problema, agora, é descobrir o mestre e quem tentou assassiná-lo e por que…

Já em 2013, Samir Machado de Machado mudava completamente o foco de seus enredos, ao editar Quatro soldados (Não Editora) que abriria mão, nos anos vindouros a uma longa e histórica narrativa, que inclui Homens elegantes e Homens cordiais, além dos novos textos que estão sendo elaborados em seu trabalho de Doutorado em Escrita Criativa, formando uma alentada, criativa e inédita saga que se desenrola entre Brasil e Portugal, mas abrange Inglaterra, Espanha e França, na linha dos romances de capa e espada, mas também a tradição gauchesca de nossa literatura (a que não está imune o até agora único texto juvenil por ele publicado, Piratas à vista (FTD, 2019) que, embora aparente distanciar-se do tema, na verdade desenvolve um igarapé em torno do tema principal, as relações coloniais entre Brasil e Portugal ao longo do século XVIII. Assim, Samir Machado de Machado está escrevendo uma verdadeira saga de uma história brasileira não oficial, utilizando lições do romance histórico, do romance de aventuras, do roman clé, com perspectiva nitidamente revisionista, a que não está infenso, por isso mesmo, um viés irônico extrememente divertido, o que faz com que a leitura de seus textos se torne radicalmente fascinante: inclusive aqueles grossos volumes a que aludimos antes, acabam sendo devorados graças ao princípio fundamental. Que se atribui tenha sido criado por Alexandre Dumas, a partir d’ Os três mosqueteiros, aparecido em 1844, em formato de folhetim, caracterizado pelo suspense da ação, a cada final de folhetim (suspense) e um encadeamento alucinante de acontecimentos, que faz com que o leitor não deixe de ler compulsivamente o texto apresentado.

Quatro soldados está ambientado em terras do sul do Brasil, envolvendo os soldados portugueses de serviço ao rei de Portugal, os chamados dragões. Desenrola-se pelas inóspitas e praticamente sem fronteiras terras do que hoje seriam parte da Argentina, o Uruguai e o Rio Grande do Sul, passando por Laguna, Desterro e Rio de Janeiro, capital da colônia. O enredo envolve disputas de poder real (entre Portugal e Espanha) e propriedade de terras, além de, obviamente, lances de episódios amorosos em que mulheres são obrigadas a casar-se se amor com homens terríveis e violentos (em todos os sentidos).

Em que Quatro soldados ser retomada futuramente, nas narrativas que se encontram ora em desenvolvimento pelo escritor, tornando-se, assim, sua fonte e projeto modelo, ainda é um texto a meio caminho, se o compararmos com o que se seguiria, em especial a série de Homens elegantes e Homens cordiais.

Desde este livro, contudo, outras características se evidenciam em relação à escrita de Samir Machado de Machado: a intensa pesquisa histórica, com amplo acesso a fontes originais, de que o escritor inclusive busca cópias digitalizadas originais, incluindo mapas, documentos escritos e objetos variados. Mais que isso: por ser um artista gráfico especializado, cada volume explora não apenas a linguagem da épica quanto os formatos e designs característicos daqueles fólios, levando o leitor a uma múltipla aventura, quer visual, quer sonora, quer vocabular, criando uma linguagem literária própria e inédita, sem perder, ao mesmo tempo, a relação com o tempo contemporâneo do autor e do leitor, como é o caso de Homens Elegantes em que o principal bandido se chama Conde de Bolsonaro, irônica referência ao então candidato e, logo depois, Presidente do Brasil, que chefia um bando de malfeitores que pretende se apropriar do poder na Península Ibérica.     

Por falar em personagens, é interessante registrar-se que o principal herói deste conjunto de relatos é Erico Borges, esboçado já em Quatro soldados, mas ainda figura periférica do enredo, tornando-se central à medida em que a trama se desenvolve, como em Homens elegantes: trata-se de um corajoso diplomata e soldado, homossexual, cuja relação com um jovem lagunense, Gonçalo Picão,  ocupa boa parte do relato deste livro, aprofundando-se nos textos seguintes. Com isso, Samir Machado de Machado recupera uma história normalmente apagada, que é a invisibilidade deste segmento, ao mesmo tempo que apresenta ao leitor uma aparente situação de incompatibilidade: cmo um homossexual e capaz de ser varonil e corajoso a ponto de tornar-se homem de confiança do Marques de Pombal e salvar a integridade da coroa portuguesa e de todo o império lusitano?  

Se Homens elegantes tem como centro de suas ações a cidade de Londres, Homens cordiais, que é seu desdobramento, desloca-se para Lisboa, especificamente, para Portugal, de modo geral. A mescla entre fatos ocorridos verdadeiramente e invenções ficcionais continua, de modo que o ritmo deste novo romance é ainda mais trepidante, se se pode afirmar isso, comparativamente. Érico Borges, definitivamente transformado em agente secreto do Marquês de Pombal, de quem agora tem absoluta confiança, é vítima de uma diabólica trama (adjetivos lugares-comum propositadamente utilizados para ser fiel à criação de Samir Machado de Machado) para eliminá-lo, tendo em vista os interesses diretamente feridos da velha nobreza católica lusitana, diante da modernização empreendida pelo Primeiro Ministro. Se é delicada a situação interna, a da política estrangeira é ainda pior, já que Portugal está pressionado pelos países responsáveis pela chamada Guerra dos Sete Anos, de um lado Inglaterra e de outro, França e Espanha, devendo posicionar-se por um ou outro lado, o que não interessa em absoluta à pequena nação ibérica.

Samir Machado de Machado defende que a chamada literatura de massa não deixa de ser a mais política de todas pois, ao apresentar aventuras aparentemente irresponsáveis e apenas divertidas, é capaz de falar a respeito de temas contemporâneos ao leitor, como, neste caso, ao leitor das primeiras décadas do século XXI. No acréscimo dos detalhes romanescos, nesta aventura, Érico Borges envolve-se com outro rapagão chamado Jacinto, mas isto é apenas um detalhe a dinamizar ainda mais a narrativa. O que vale é a exaustiva pesquisa histórica – Samir considera este o livro mais vinculado a fatos históricos que escrevera até então – incluindo mapotecas e obras de historiadores ingleses, portugueses e espanhóis, recriando inclusive medidas para poder referir corretamente as dimensões e projeções de espaços e de tempos que são utilizadas ao longo da narrativa.

Seguindo o modelo do romance folhetim, um sem número de personagens vão surgindo na trama, aparentemente sem maiores relações, mas à medida em que o enredo avança, estas figuras vão se entrelaçando. É o caso do Andaluz, presente desde Os quatro soldados: trata-se de uma curiosa e misteriosa personagem, profundamente erudita e mordaz, contrabandista de livros (crime certamente aterrador, nos séculos XVII e XVIII), que atravessa os continentes e fornece originais proibidos pela Inquisição ou pelas coroas para os interessados, mantendo-os, contudo, também para deleite próprio. A importância desta figura cresce à medida em que as tramas avançam e se combinam do mesmo modo que outras figuras, algumas bem malévolas, aparecem e vão ganhar igualmente relevo em narrativas bem mais longínquas, como o Índio Branco.

Seguindo fielmente as lições de Mikhail Bakhtin, Samir Machado de Machado parafraseia os gêneros mais diversos, os discursos mais variados, inclusive recriando o idioma lusitano falado e escrito nos séculos XVII e XVIII, bem como aquele que se usava no Brasil. Assim, a riqueza fonética e expressiva de seus textos está sempre sendo renovada, com enorme atratividade para o leitor. Se Umberto Eco tem razão ao dizer que o escritor es colhe o leitor para quem escreve, Samir Machado de Machado sabe bem a que leitor pretende se dirigir: trata-se de um leitor com excelente experiência de leitor (cada vez que leio seus romances lembro-me do Eco de O nome da rosa ou O pêndulo de Foucault, em que o romancista italiano explora as mesmas alternativas (em especial no segundo romance), afazendo com que o leitor deste texto presente tenha de se reportar, necessária e constantemente aos textos anteriores, que fazem parte da história literária e, deste modo, o texto presente inscreve-se automaticamente nesta complexo contínuo.

Distanciando-se aparentemente do centro de suas atenções, surge a novela juvenil Piratas à vista! (FTD, 2019), mas é só engano: “Diz-se que esta história se passou no ano de 1710, aqui nesta estranha colônia portuguesa batizada com o nome de uma árvore vermelha, cor da brasa, que se manda à Europa para fazer mobília” (p. 10), introduz o narrador ao leitor (teoricamente, um leitor juvenil, para viver aventuras juvenis, com personagens juvenis: é o princípio do livro dirigido a leitores juvenis, rezam as cartilhas de criação literária). Não há como não lembrarmos, desde logo, Peter Pan, do inglês J.M. Barrie, a respeito do menino que não queria crescer. Não é bem o caso desta narrativa: aqui, é a menina Leonor,  corajosa, logo transformada na grande heroína a resistir ao ataque dos piratas franceses à cidade de Desterro, onde vive sua família, ao lado do sensível André, cujo sonho é aprender corretamente os passos das danças então dançadas nos salões das casas aristocráticas ou burguesas.

Seja como for, os dois jovens, além de algumas outras personagens, acabam assumindo da defesa da vila, já que o governador Francisco de Castro Morais é incompetente para tal.  Samir Machado de Machado apresenta perfeita emulação da narrativa aventuresca dirigida aos jovens, em que estes mesmos jovens são os heróis, explorando a autoconfiança dos futuros cidadãos. O texto é dinâmico, divertido, muitas vezes irônico, mas bem menos do que ocorre nos textos dirigidos aos adultos, preferindo apenas brincar com as incompetências das autoridades, ao mesmo tempo em que evidencia que posição social não é, necessariamente, a maior qualificação para a valorização na comunidade.

Quebrando este conjunto narrativo que ocorria num Brasil historicamente profundo e temporalmente longínquo, em 2018 Samir Machado de Machado publica, intempestivamente, Tupinilândia (Todavia), com mais de 500 páginas e, mais uma vez, uma recriação de episódio verdadeiro, a idealização de uma cidade em plena selva amazônica, utopia de Henry Ford, que ecoava aa antiquíssima lenda das amazonas e de cidades de ouro e esmeraldas perdidas em meio à selva.

Neste caos, e coincidindo com o golpe de 1964, é um industrial alemão, que se abrasileirou, João Amadeus Flynguer, quem idealiza uma grande cidade em meio à jângal. Entre avanços e retrocessos, o sonho (ou o pesadelo) vai-se tornando realidade, mas uma utopia marcadamente humanista, na tradição da Atlântida platônica, é transformada, por um punhado de militares e fascínoras que que andam em volta das luzes dos golpistas, num lugar a partir do qual seria construída, de fato, uma sociedade autoritária e centralizadora, cuja característica lembra o projeto. É interessante como a atenção jornalística do escritor é tão apurada que, publicado em 2018, o livro antecipa, de certo modo, anda que em outros termos, os mirabolantes acontecimentos de que estamos tomando conhecimento em torno da sucessão de Jair Bolsonaro por Luís Inácio da Silva, com envolvimento de militares de altas patentes, civis empresários instituições religiosas dedicadas à salvação de indígenas e assim por diante.

O livro mais recente de Samir Machado de Machado., e que lhe valeu o Prêmio Jabuti recém anunciado, é O crime do bom nazista (Todavia, 2023). Deslocado para os anos imediatamente anteriores à II Grande Guerra, toda a ação ocorre a bordo de um Zeppelin (só esta opção de locação da ação romanesca já é um achado). No pequeno (apenas 122 páginas) relato, um assassinato ocorre durante uma viagem do Zepellin entre a Alemanha e o Brasil e, por um acaso, um detetive que viaja a bordo é chamado para elucidar o caso. O espaço constricto de um avião (poderia ser um hotel, ou um navio) permite ao escritor reunir tipos dos principais estereótipos da atualidade, quanto a todos os preconceitos possíveis e imagináveis, além do uso de sobrenomes que – a exemplo do romancista Ricardo Lisias – referindo personagens reais da realidade politica imediata brasileira ou internacional, não configuram, em sentido estrito, um roman à clé (romance chave), segundo a teoria literária, a que já nos referimos antes, mas permitem o pastiche e a ironia que, evidentemente, só ocorre para leitores contemporâneos à própria criação da obra, elemento que vai se perder com o tempo, mas que, com sua existência atual, é mais um exercício crítico e, com sua perda, de fato, nada se perde, subsistindo o enredo por si mesmo.      

O livro recebeu imediatamente destaque, sendo traduzido em diferentes idiomas e acabou recebendo esta premiação, o quê, de certo modo, reconhece a importância e a inovação dos relatos apresentados por Samir Machado de Machado.

Não quero encerrar esta nota relativamente curta a respeito deste jovem mas poderoso escritor, sem referir um outro trabalho seu, desta vez em tarefa coletiva, que é Corpos secos (Alfaguara, 2020).

Trata-se de um relato desenvolvido a oito mãos, por quatro jovens criadores, Luisa Geisler, Natália Borges Polesso, Marcelo Ferroni e Samir Machado de Machado. Cada um tem sua própria caminhada e já ocupam espaços significativos na história contemporânea da literatura sul-rio-grandense e brasileira. Mas aqui se uniram num projeto incomum, aparentemente gratuito e desconexo, mas que, se bem observado é de uma atualidade e oportunidade – esta é sempre uma marca da criação de Samir Machado de Machado: por trás do que parece ser descosido e casual, encontramos uma referência crítica ao mediato – contundentes, porque se constitui numa terrível metáfora do que estamos atualmente vivendo no Brasil.

Não se trata de referir apenas o mais óbvio, a covid ocorrida em todo o mundo e no Brasil. É algo mais profundo: o Brasil se vê atacado por uma endemia de que ninguém conhece a origem e as pessoas se transformam imediatamente em corpos secos. A referência imediata é a covid 19, por certo. Culturalmente, é a série Walking deads que alcançou enorme sucesso nas redes de streaming. Mas a coisa é mais séria: no relato, feito através de capítulos curtos (imagino que cada autor tem a tarefa alternativa de desenvolver seu trabalho e para isso a criação de personagens é fundamental. Os personagens, por sua vez,  permitem explorar a tradição do romance folhetim em que em sem número de enredos são desenvolvidos paralelamente mas, à medida em que a trama avança, estes enredos particulares vão se aproximando e encontrando, articulando um outro relato maior.

No caso, o surgimento destes corpos secos determinou a radical falência da administração do Estado, tanto em nível federal, quanto regional. Em consequência, a maior parte da população já está transformada nestes mortos vivos que perambulam pelo país, uma célula de governação está centralizada em Florianópolis (por ser um a ilha) para onde acorrem aqueles que pretendem ainda se salvar, com alguns remanescentes das forças militares e alguns integrantes da polícia federal. A alimentar a trama, um jovem – Mateus – curiosamente parece não ter sido afetado pelo vírus. Deste modo, ele está rodeado por uma equipe médica que, ao examinar suas reações, tentar entender o que o torna imune à doença, enquanto alguns policiais garantem a integridade do grupo, que se desloca na tentativa de chegar a um local de salvaguarda do personagem.

A alternância das ações, com foco nos personagens, garante uma ação vertiginosa, que prende e angustia o leitor, chegando-se ao final da narrativa cm um suspense que faz pressupor aa possibilidade de um novo texto a ser criado posteriormente.

No contexto da obra de Samir Machado de Machado, que propus discutir, podemos ler este texto como uma nova contribuição do autor para a renovação e redimensionamento destes gêneros ditos industriais ou de massa, segundo estudos, por exemplo, de Muniz Sodré e Regina Zilberman, texto que, de certo modo, no caso dele, completa o conjunto de experimentações que faz nos mais diversos gêneros desta literatura industrial ou literatura de massas, que vai do romance de capa e espada, passando pelo relato de piratas, romance histórico, texto gótico, chegando ao texto policial e, enfim, ao de terror. Em cada texto, Samir Machado de Machado explora todas as potencialidades do gênero, redimensiona-as e as renova, garantindo, assim, uma leitura prazeirosa para o leitor que, no entanto, não é necessariamente simples. Evocando aqui o conceito de leitor modelo, de Umberto Eco, Machado de Machado propõe diferentes camadas de narrativa e, em consequência, de leitura, dependendo do preparo e do acervo enciclopédico literário que cada um possua.  Para o leitor menos exigente, a simples aventura. Para um leitor mais especializado, o prazer de descobrir as referências e os cruzamentos tantas vezes estudados por Mikhail Bakhtin. O que importa aqui, referir é que, por trás desta aparente banalidade e simplicidade, existe uma cuidadosa (re)construção de cada gênero quanto ás suas principais características, buscando os diferentes registros, num conjunto de criação de que foi, talvez, pioneiro, Umberto Eco, antes aqui referido, cuja obra teórica anterior, de certo modo preparou-o para uma consciência sobre o que viria a desenvolver sub sequentemente, com seus trabalhos de ficção, explorando conscientemente aquelas possibilidades.   

A obra de Samir machado de Machado encontra-se literalmente aberta, porque em construção. Neste momento, ele desenvolve seus estudos de Doutorado em Escrita Criativa, dando sequência aos relatos iniciados com Quatro soldados, concretizando um grande projeto de romance histórico, num dos sentidos que lhe dá Gyorgy Lukacs, de modo que podemos e devemos esperar muito deste escritor que tem uma veia imaginativa extaordinária e, ao mesmo tempo, um domínio histórico e teórico sobre a literatura que lhe permite estas experiências bem realizadas, porque bem equilibradas. Nele, encontramos a vertigem do narrar (enquanto autor) que permite o deleite do leitor.

Leia mais do autor em Sepé.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *