‘O MAR ENQUANTO’, DE DIEGO LOCK FARINA

Por Augusto Quenard

A primeira pergunta que me despertou O mar enquanto (2024, Contratempo) foi por que um autor porto-alegrense fala do mar? Sem dúvida não uma pergunta que pretendia referir uma incoerência ou um desatino, mas antes uma reflexão inicial para a recepção da obra. No entanto, não foi necessário avançar muito na leitura para elaborar um sentido. Diz um trecho do primeiro poema:

O mar pertence
invariavelmente
ao microscópico grupo
das coisas imensas
que continuam

Esse fragmento, sobre o pano de fundo dos poemas que o seguem, me autorizou a pensar que o Diego Lock Farina, talvez, seguisse uma tradição do mar não como elemento de esplendor e fascínio, de hipérbole ingênua, mas do que a poesia já insinuava no período do romantismo, ou começava a insinuar: de um mar incircunscritível, marcado pelo traço da indiferença, da impassibilidade diante da angústia que nos causa a necessidade de atribuir sentido e compreender o real.

E esse mar, arrisco a dizer, se cola, em sua incomunicabilidade, à falta do poeta. Falta constituinte do sujeito, sim, mas também inexpugnável do artista. E tal falta, em O mar enquanto, parece derivar em objetos hipotéticos, não necessariamente fictícios, que se apresentam para propor a identificação dessa falta, em suas facetas infinitas, como o desdobramento de ondas que crescem volumosas e chegam tímidas, frágeis, à praia. Como uma forma de nomear, também, a nostalgia profunda que se percebe no absurdo da existência, no mar da linguagem: a nostalgia de um sentido. Uma melancolia, quem sabe.

De fato, o conjunto microscópico das coisas imensas que continuam é um conjunto de melancolias, que, diferentemente do luto, são perdas que não acabam, as perdas que não se podem elaborar, porque justamente, adverte o poeta, “continuam”. O mar como pertencente, mas também como simbólico representante do conjunto de incompletudes, objetos que não podem ser solucionados, sintetizados, assim como o mar não pode ser circunscrito.

Esses são os assuntos que seguem ao poema introdutório do livro. A obra, então, é o próprio grupo daqueles vislumbres que o poeta pôde condensar entre os elementos que compõem a realidade e se inscrevem nas coisas imensas que continuam: o horizonte, a saudade, o tempo, a tristeza, as metáforas, a linguagem, o suicídio, a intimidade, as línguas, os corpos, o dia, o nada, a literatura, a escrita, os rituais, o esquecimento, o chão, as partidas, os cardumes, os pássaros, as celebrações, as sucessões, a liberdade, o amor, as paisagens, os sinais, as tradições, as cidades, a chuva, as janelas, os países invisíveis, as coisas sem fundo, os reinícios, o absurdo, as viagens, o desejo, a ideia de Paris, as cores, a velhice, os finais, a loucura, os acidentes, o olhar, a pessoas que não dizem o que dizem, o medo, o desencontro, o êxodo, o choro… Sem excluir outros elementos mais complicados, mais dramáticos, como a doença, a morte, o suicídio ou a língua portuguesa.

Nas seções, que se intercalam como “movimento” e “imobilidade”, vemos portanto uma oscilação. E tanto quanto no mar, que consente as marés, mas que também se espraia ou repuxa – por outro eixo, o horizontal da evolução das ondas –, nos poemas do livro temos o primeiro movimento oscilante, das partes, e ainda este outro dos versos:

a insistência da vaga quebrando
suaviza o impacto
daquilo que empareda e rasga

O que empareda e rasga? As capas e as páginas, suponho. E talvez seja mesmo necessário suavizar o impacto das vagas. Desestabilizar, sem derrubar. O verso livre de rimas brancas perpassa o livro inteiro, sem dar lugar aos esquemas fixos, e hipnotiza à maneira do cenário de estabilidade dinâmica da praia. O conjunto é inamovível – ao menos, sua velocidade é invisível ao olho humano –, mas as “vagas”, qual versos, ribombam e silenciam, em extensões variadas.

Por que o autor porto-alegrense fala do mar? A resposta está na própria pergunta: porque se sabe porto, justamente. É exímio em adentrar o mar. Em amparar o mar. Sabe, muito melhor do que o poeta litorâneo, que o mar só é contido em sua abstração. Que o real do mar é impossível. O mar é sempre uma noção. E, como plataforma avançada no oceano, o poeta tem o privilégio de ver não só as ondas, mas o horizonte em que despontam todas as vagas do microscópico grupo das coisas imensas que continuam.

Leia mais do autor em Sepé.

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