‘VOO NOTURNO’, DE ANTOINE DE SAINT EXUPÉRY

Por Augusto Darde

A gente se espanta com a velocidade do avanço das tecnologias. Foi há dez anos, por exemplo, que adquiri meu primeiro smartphone, que criei um perfil no Instagram, e isso com algum atraso. De lá para cá, certos filtros em fotos viraram pré-história, surgiram stories, reels, uma pandemia com suas lives, e o streaming vem enterrando a TV, o cinema, a rádio e o jornal, essas plataformas que já nos assombram ao lado de livros impressos e LPs.

Dez anos. Mas e cem anos? Por onde se medem cem anos? É esse tipo de questionamento que me levou a destacar entre minhas leituras de 2024 o breve romance Voo noturno (Vol de nuit no original), de Antoine de Saint Exupéry (1900-1944), publicado em 1931 e com algumas traduções em português a partir da década de 1960. Ainda não fechou um século exatamente da publicação, mas a obra carrega um dos espíritos dos anos 1920, não aqueles do jazz e da génération perdue bem falados na história da literatura. No título Voo noturno, por exemplo, temos uma questão, uma boa medida do tempo e da particularidade da época: aviões voarem à noite era grande coisa, um evento que chegou a justificar um título de livro.

Desde o início de 1928, o correio aéreo da Aéropostale possuía uma linha semanal de serviço França-América do Sul, com o percurso Rio-Buenos Aires realizado à noite. No ano seguinte, Saint Exupéry, até então piloto da empresa na linha Casablanca-Dakar, fez treinamento para voo noturno e, em outubro de 1929, foi nomeado chefe de exploração da Aéropostale na Argentina. Suas funções eram, entre outras, assegurar o bom funcionamento das linhas já existentes (para Santiago, Assunção e Rio de Janeiro) e abrir um novo percurso em direção ao sul, na Patagônia. Foi ele que inaugurou, em novembro de 1929, o primeiro correio Bahía Blanca-Comodoro Rivadavia. E foi durante a estadia na Argentina que o jovem aviador-autor escreveu Vol de nuit, retornando à França com o manuscrito da obra em fevereiro de 1931.

No prefácio, André Gide afirma que tudo o que diz Saint Exupéry é com conhecimento de causa: “o afrontamento pessoal de um frequente perigo dá ao seu livro um sabor autêntico e inimitável”. Gide também admira o valor duplo da obra, literário e documental. O voo noturno foi uma forma de acelerar a entrega das correspondências, competindo com outros meios de transporte. Isso oferecia inúmeros riscos aos pilotos de aviões como o Laté 25, ainda de navegação visual. O único exemplar dele conservado no mundo, aliás, e pilotado pelo próprio Saint Exupéry, se encontra no Museo Nacional de Aeronáutica em Buenos Aires.

Voo noturno narra os últimos dias de Fabien, piloto que traz a correspondência do Estreito de Magalhães em direção à capital argentina. Os primeiros parágrafos mostram a perspectiva do aviador, a noite chegando em voo, a narração compara com o passeio de um pastor e seu rebanho: “ele ia de uma cidade a outra, era o pastor das cidadezinhas. A cada duas horas, encontrava algumas que vinham beber à beira dos rios ou pastar em sua planície”. A breve escala em Puerto San Julián é descrita já à noite, enquanto a equipe em Buenos Aires informa que há grandes formações de tempestade, desejando saber se Fabien irá dormir em San Julián. O piloto responde, com tranquilidade, que o céu está puro, sem nenhum vento. Daí por diante, as consequências desse erro. O coordenador Rivière, responsável pelas linhas – um alter ego de Saint Exupéry -, trabalha para orientar Fabien por rádio e, pouco depois, consolar a esposa do piloto, chegando na agência da companhia já sabendo que não há mais notícias do marido.   

Ainda no espírito das vanguardas do início do século XX, o livro explora a atualidade do avanço tecnológico, nesse caso relacionado à aviação. Assim como obras anteriores de Saint Exupéry, o texto é pioneiro na descrição das paisagens vistas de um avião. Também traz um panorama das mudanças profundas nas relações humanas, os lugares do planeta e suas culturas têm acesso mais rápido, os choques culturais são mais intensos. Isso tudo na ressaca de uma guerra de proporções mundiais. Um dos temas centrais do texto é a coragem. André Gide, ainda no prefácio, traz uma carta que recebeu de Saint Exupéry em que o autor testemunha sobre a experiência dessa virtude, a qual, paradoxalmente, “não é feita de belos sentimentos: um pouco de raiva, um pouco de vaidade, muita teimosia e um prazer esportivo vulgar”. Assombrado pela noite e pela morte, Vol de nuit tem essa tonalidade não heroica, é um mergulho na corrida da falta de escolhas para dar conta do mundo em contato.

A primeira vinda dos aviadores franceses da Aéropostale à América do Sul foi em 1925, com a finalidade de averiguar os terrenos para suas escalas. Uma delas foi Porto Alegre, mais especificamente o que se tornaria o aeródromo de “Gravatahy”, onde hoje é a Base Aérea de Canoas. Num trecho de Voo noturno, um piloto em Buenos Aires planeja o retorno à Europa. A narração diz que “Il pensait à la brume possible du côté de Porto Allegre” (“Ele pensava na bruma possível para o lado de Porto Alegre”). Certamente a capital gaúcha é citada não apenas como ponto de referência na perspectiva das alturas, mas também como uma das escalas a serem realizadas, estando implícita a dificuldade da aterrissagem por aqui.  

A escolha pelo terreno onde é, atualmente, a Base Aérea de Canoas não foi por acaso: já existia um aeródromo no local do Aeroporto Salgado Filho, mas a equipe da Aéropostale decidiu instalar sua escala em Canoas porque, com frequência, a pista mais próxima de Porto Alegre sofria inundações. Li Voo noturno em 2024, ano da mais trágica enchente na capital gaúcha, e soube então, por pesquisas que esse livro me instigou, que a companhia francesa de correio aéreo já havia evitado, em 1925, a área do inundado aeroporto Salgado Filho… Toda essa contextualização torna a leitura do livro ainda mais interessante e melancólica em igual medida: há cem anos, até um grupo de estrangeiros já se precavia com inundações em Porto Alegre, e parece que um século não foi o suficiente para ensinar o poder público daqui a fazer o mesmo.

Saint Exupéry, conhecido principalmente por seu Pequeno príncipe, de 1943, atingiu grande notoriedade na França já com Voo noturno, de 1931. Nessa mesma época e antes do prestígio mundial, como aviador em escala, caminhou pela Rua dos Andradas e frequentou cafés do Largo dos Medeiros (fato confirmado por Nilo Ruschel em seu livro Rua da Praia). Cem anos vão se passando desses primeiros anos da aviação, e da aviação na América do Sul, da aviação aqui, em nossa topologia, nosso clima, nossas ruas, nossas calçadas, nossas mesas. Os aviões evoluíram muito, o voo à noite é tão seguro quanto aquele realizado à luz do sol. As correspondências chegam instantaneamente, em telas ao alcance das mãos, sua entrega anunciada por notificações tão rápidas que preferimos fingir que não foram visualizadas, as mensagens tendo sua leitura adiada. Nossos medos e voos são outros, mas a noite prossegue fazendo seu contraste ao dia.

Leia mais do autor em Sepé.

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