Por Douglas Ceccagno
Talvez nenhuma narrativa tenha influenciado tanto o Ocidente quanto aquela da criação da humanidade e sua subsequente expulsão do lar edênico, carregando a culpa original. Convivemos, desde então, com essa falta que nos move, em que convivem orgulho e desprezo.
O mito de Adão e Eva tem antecedentes sumérios, porém tomou sua forma, vamos dizer, definitiva, em algumas poucas páginas do Gênesis, o livro de abertura da Bíblia cristã. Daí, então, a história é longa. E é esse percurso histórico, teológico, literário, filosófico, geográfico, psicológico, sociológico etc. que Stephen Greenblatt reconstrói em seu livro Ascensão e queda de Adão e Eva, de 2017, lançado no Brasil no ano seguinte pela Companhia das Letras, com tradução de Donaldson M. Garschagen.
Greenblatt é uma referência em estudos shakespearianos, professor da Universidade de Harvard e um dos ícones do Novo Historicismo, mas é também um autor de best-sellers eruditos a exemplo de Como Shakespeare se tornou Shakespeare e A virada, uma história deliciosa sobre como a busca por manuscritos antigos no final da Idade Média deram vazão à mentalidade renascentista.
Em Ascensão e queda de Adão e Eva, cada capítulo coloca novas camadas históricas de leitura e interpretação do texto bíblico, nas quais avultam figuras como São Jerônimo, Santo Agostinho, John Milton e até Charles Darwin. Sobre todos eles, Greenblatt esboça um perfil biográfico interessantíssimo, em que se misturam questões pessoais à compreensão de nosso mito de origem. Na passagem reservada a Santo Agostinho, por exemplo, uma história de amor proibido contribui, segundo o texto, para a condenação de Eva e das mulheres em geral. Aliás, a despeito das diferentes leituras do Gênesis, a história de como Eva tornou-se a principal, ou a única, culpada pelo exílio do primeiro casal é um dos tópicos mais interessantes do livro. Outro momento cativante para os interessados em literatura é o capítulo a respeito de John Milton, que compôs seu Paraíso perdido após os cinquenta anos de idade, cego, rodeado pela família numerosa da esposa e perseguido por suas posições políticas.
A história de Adão e Eva fundamenta nossas noções de obediência e transgressão, é símbolo do conhecimento, da conquista da liberdade e também do desligamento de nossas fontes originais. Ela dialoga com o tema do Anjo Caído e se complementa com a redenção representada pela figura de Cristo. Seria necessário muito mais espaço para simplesmente mencionar todas as questões levantadas por Greenblatt nas quase quatrocentas páginas do livro. Por isso, vale muito ceder à tentação e colher os frutos dessa leitura.

