‘BECOS DA MEMÓRIA’, DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Por Fátima Farias

Escrevivência significa escrever vivências, o que se está vivendo, libertar o que se sente na forma escrita baseada na oralidade.  Uma vida inteira cabe em um beco de memória, outras da mesma forma, por que não? 

“…primeiro foi o verbo de minha mãe. Ela Dona Joana, me deu o mote – Vó Rita dormia embolada com ela!” 

As vozes dos nossos antepassados e das nossas antepassadas se eternizam, são ouvidas durante toda nossa existência, se fazem sopros enquanto escrevemos. Custei a entender de onde tiro tantas histórias. Hoje sei. Obedientes, escrevemos aliviando este acúmulo de informações criadas pelo silenciamento que sofremos há séculos. 

Tingindo o papel de forma natural, como se estivesse conversando com os personagens da história verídica (por vezes ficcionada) baseada nos fatos lógicos, me faço durante a leitura mais uma personagem desses becos, enquanto permito que meus olhos vasculhem cantos também de minha memória. 

Não temos tempo para o autoamor; precisamos, no momento, apenas não morrer. É isso que deixa muito bem explicado a narradora no texto, embora com outras palavras. Se, por acaso, passa por ali algum carinho, deve ser voando nas asas de algum pássaro visitante. Becos da Memória são espaços internos onde residem lembranças dolorosas. Favelas esquecidas. Senzalas disfarçadas de Vilas. 

O texto nos prova em imagens poéticas todo o abandono do Estado. Dói ler. Meu desconforto diminui um pouquinho quando incorporo a narradora e tento, do meu jeito, diminuir a dor de pobreza no peito de  Ditinha. Usei toda força mental para que a personagem tirasse os olhos da força física, para que, de todas as formas, fizesse com que ela tirasse os olhos da pedra verde. Absolutamente não tive sucesso e voltei triste ao meu papel de simples leitora. 

Becos podem ser gritos de dor, de fome, sede, sangue, saudades, abandono e fé.  

Becos, acima de tudo, podem ser Resistência! Teimosia! Luta! 

Passeei por esses Becos, senti nos pés suas pedras pontiagudas, inalei o cheiro de bosta, vi o brilho da verde pedra e o sangue escorrer do seio de Ditinha. Revivi realidades durante a leitura. 

Conceição Evaristo criou o termo escrevivências para que pudéssemos escrever nossos medos, mágoas e raivas, dando assim liberdade aos espíritos sofredores que transitam aqui dentro.  

Por quantas vezes vi minha avó, mãe, tia, primos e vizinhos nos becos da favela em demolição?  Não sei ao certo, mas foram muitas com certeza. 

Me vi organizando armários de patroas, esfregando chão, jogando restos de comida (aquela que em minha casa faltava) no lixo. 

– Quer levar?  É do churrasco de ontem. 

– Não, obrigada – minha resposta surgia quase muda de tanta vergonha.  

Nossa realidade a elas nunca interessou. Confundo e comparo histórias nossas de agora, pois há muito que contar; abafados continuam nossos gritos.  

Quem sustenta a favela? A favela se autossustenta. 

A voz da narradora monta grupos em um beco da memória, enquanto concretiza enredos da vida real. Costura talentosamente o desassossego. Seus personagens brotam e logo florescem como rebentos em um pântano.  

Ancestralidade. As vozes ordenam: escreva, revisite seus becos e conte suas histórias. Cate gravetos, acenda a fogueira, escreva enquanto vive. Viva e escreva Escrevivências. 

A fala não se esgota, a escrita infinitamente estende-se alcançando o outro, a outra, a dor, o fogo, a morte. Enquanto há vida em nossa volta, escrevemos também por necessidade. Na intenção de acabar com a miséria também se escreve. Há quem diga: Afaste a morte através da escrita.                                                  

 “…Não é uma escrita para si, se fosse
acabaria em si e ponto.”  Conceição Evaristo.

Leia mais da autora em Sepé.

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