‘O EMBRANQUECIMENTO’, DE EVANDRO CRUZ SILVA

Por Gabriel Gonzaga

Minha primeira reação ao virar a última página d’O Embranquecimento (2024) foi de surpresa. Uma das piores facetas da escrita acadêmica é sua habilidade em escapar para outros textos. Uma amiga chamou minha atenção para essa recorrência, e desde lá não consigo deixar de reparar quando uma frase qualquer transborda uma teoria rascunhada em solipsismos. Acontece com muita frequência nas redes sociais, mas também em conversas banais, problemas da rotina do trabalho, e mesmo em salas de aula e seminários acadêmicos. É uma avalanche de discursos rebuscados que frequentemente são apenas um “eu acho que” envernizado. E, seguindo o atento de Paulo Roberto Pires na Quatro Cinco Um, também são tempos de narradoras narcísicas nas ciências humanas. Minha surpresa foi Evandro Cruz Silva, no seu romance de estreia, balançar essa corda propositalmente sem recorrer aos mesmos vícios.

A impressão é que a história de Macária, uma pesquisadora da raça na história da arte, traduz em forma esse dilema entre crítica e vida. Macária é obcecada pelo quadro A redenção de Cam, do espanhol Modesto Brocos, que a leitora deve se lembrar, nas aulas de História do ensino médio, como o emblema da campanha de embranquecimento do Brasil na virada do século 19. Ela o torna seu objeto de pesquisa, ao mesmo tempo que se esforça para decifrar o peso dessa representação racial sobre sua vida. Por mais neurótica que tenha se tornado sobre esse assunto, a narrativa não mostra Macária passiva. Sua mãe, negra, era faxineira de uma universidade, e seu pai, branco, um funcionário da instituição; no presente, Macária se prepara para um concurso público, enquanto equilibra e recombina as relações com Hannah, sua companheira alemã, Maria, sua filha, e Alberto, homem negro e pai da menina. Esse contraste entre experiências geracionais sugere uma analogia (uma metonímia) com o estágio da crítica do sujeito racial no país, e consequentemente dos limites dessa intelectualidade para resolver problemas vividos. Isso aparece no momento em que Alberto se dirige, carinhosamente, a Macária e diz: “a diferença é que a vida me pergunta e eu respondo. Você não, você só discute a pergunta, preta”. E retorna em todas as vezes em que Macária precisa se haver com seu pai ausente e vítima de overdoses: “dizer que o perdoei seria condescendência e puritanismo. A impressão que tenho é a de que deixei-o entrar em minha vida e se encaixar onde pudesse”.

Evandro Cruz é sociólogo de formação e escritor publicado desde o livro de contos Praia Artificial (2021). Minha surpresa com O Embranquecimento foi encontrar na prosa a transcrição de uma problemática, que complexifica sua forma, mediante uma linguagem que pendul entre a constatação do sujeito (racial) e a resistência do (seu) objeto. Uma técnica que me remete a James Baldwin, clássico americano, um dos meus autores favoritos.

Leia mais do autor em Sepé.

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