Por Luciano Prado
O pampa é um território a desbravar, gaúcho nenhum esquece um ensinamento desses. A metáfora, porém, assume força maior do que a exploração literal quando expoentes artísticos (no caso, aqui, literário) colocam o lugar-comum de cabeça para baixo e resolvem apontar esquinas e sombras longes dos pastos e rebanhos. Porque existe um espaço neutral, uma interseção do campo com a cidade, em que o povo, tal qual o centauro, assume um híbrido do campeiro destemido de fala regional com o citadino comezinho, um gaúcho pouco retratado porque talvez lhe falte charme. O que não falta, saliento, é complexidade.
O livro de Rodrigo Figueira é um apanhado de onze contos cuja temática, tão bem influenciada por autores platinos e sul-brasileiros, gera um amálgama delicioso de se ler. Em algumas histórias nem bem sabemos se ainda estamos em algum canto empoeirado urbano ou se já vislumbramos de volta o campo amarelado rodeado de quero-queros. Não que isto importe, até ajuda. O peso ali está nas cenas, nos diálogos e nos personagens. A cadência dos fatos relatados, a interação de pessoas comuns em situações nem um pouco ordinárias (mas universais, e não é assim a ótima literatura?), tudo isso faz com que o leitor possa até deixar escapar uma ou outra expressão mais “gauchesca”, mas, ao contrário de dificultar a tarefa de quem aprecia o texto, o efeito atingido propõe uma sensação de busca pelo sentido contextual dos termos, o que enriquece o passeio.
Natural de Bagé, o autor trafega em meio a conflitos juvenis, dívidas emocionais, embates físicos (ou quase físicos, num dos melhores contos). Sempre presente, entretanto, aprecia-se um fio condutor, uma força entremeada às linhas escritas que daria orgulho ao patrono da Feira onde Rodrigo lançou este livro de estreia, Sergio Faraco. Uma experiência humana longe de clichês, perto de qualquer tipo de leitor que se dedique a esmiuçar a boa literatura.
Há uma visível habilidade do autor em fortalecer o não-dito, os silêncios desconfortáveis surgem com frequência na interação dos personagens e tais vocalizações deglutidas adornam o cenário como um lustre majestoso a pender sobre a cabeça sofrida dos personagens. Ao final de cada conto, um pampa urbano a desbravar: o leitor não pode (e nem deve) esperar um pôr-do-sol mastigado sem que ele mesmo tenha que participar da derradeira reflexão. Neste quesito, acredito, reside provavelmente o ápice de todo contista que se preze, o que é o caso do Rodrigo, a história lida ressona por horas após o ponto final.
E daí, bem, daí que dificilmente alguém esquece um livro desses.

