Por Carlos Roberto Martins dos Santos
No ano de 2023, o poeta João da Cruz e Souza, nascido em 1861 em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e falecido aos 36 anos em Curral Novo, Minas Gerais, ganhou um livro póstumo que é verdadeira peça de joalheria. É o livro Missal para o diabo: contos e poemas assombrosos, publicado pela editora O Grifo, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. É o livro que eu desejaria recomendar a todos os amantes da poesia deste que foi justamente chamado o Dante Negro, o precursor da poesia simbolista no Brasil, cuja vida trágica se confunde ao tormento da sua poderosa literatura.
É uma edição de luxo a preparada pela O Grifo, em capa dura, ilustrada e com fitilho de seda. Tem a grandiosidade e ornamento necessário para encorpar a obra deste poeta que notificou o Brasil quanto ao simbolismo e trouxe ao movimento, entre outras coisas, o drama da discriminação racial infelizmente persistente até o Brasil de agora.
Embora a critica literária impute a ele muitas vezes um afastamento das questões dos negros brasileiros, isto não corresponde ao exame de sua obra. Cruz e Sousa militou e muito em relação à discriminação que sofreu na própria pele, pois em razão disto foi impedido de assumir o cargo de promotor para o qual se habilitara. Foi um jornalista atuante e percorreu o Brasil acompanhando uma companhia teatral. Foi viver no Rio de Janeiro em torno de 1890 e lá conheceu profundamente as obras dos simbolistas franceses, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé e demais.
Na coletânea em questão, no entanto, são destacados os textos mais sombrios de Cruz e Sousa. Desfilam em seus poemas assombrações, cemitérios, a loucura e o próprio Satanás baudelareano. Mas sobretudo a Morte, visitante responsável pela tragédia que afetou o poeta e sua esposa, ceifando ainda na infância a vida de seus quatro filhos e tornando o seu simbolismo mais distante do elitismo europeu que lhe deu origem e mais vívido do drama e do horror da vida.

