‘MENORES QUE O CÉU’ DE GEAN PAULO NAUE

Por Gustavo Melo Czekster

Se viver é perigoso, como escreveu Guimarães Rosa, crescer é mais perigoso ainda. É durante a infância que os valores são formados, que as crises existenciais se transformam em traumas, que dilemas imensos surgem e podem definir destinos, e tudo isso acontece quando ainda estamos em formação. O mundo não tem piedade nenhuma com as crianças, que desde cedo são condenadas a carregar consigo os problemas de uma humanidade adoecida, as inseguranças dos seus pais, um mercado de consumo inteiro voltado para seduzi-las – usá-las – e, não bastando tudo isso, travam consciência com a ideia da finitude, com a noção de que podem não estar mais ali (apesar de recém terem chegado no palco da existência).

Para chegar à idade adulta, todos tivemos infância, e, ainda que alguns pareçam ter passado por uma com menos problemas, na realidade cada um precisou arcar sozinho com a carga de crescer em um mundo que diz se preocupar com as crianças, mas, ao mesmo tempo, cria situações e problemas que acabam por forçá-las a amadurecerem precocemente “para o seu próprio bem”. É o que vemos nos onze contos do livro “Menores que o céu”, de Gean Paulo Naue, um conjunto de narrativas que abordam a infância de forma desassombrada, afastando-se do caráter idílico dessa etapa da vida como “a aurora da minha vida”, de acordo com o poema de Casimiro de Abreu, enquanto se aproxima da infância cruel exposta por Tchékhov em “Vanka” ou por Dostoiévski em “A árvore de Natal na casa de Cristo”.

No autógrafo do meu exemplar, Gean Paulo diz “que este livro lhe faça lembrar da sua infância”, e realmente fez. No entanto, não lembrei com aquela verve nostálgica que geralmente nos acompanha quando lembramos da infância, com saudade daquela época em que os problemas não pareciam tão grandes quanto são hoje. A memória nos prega um engodo, pois a infância não foi tão boa assim quanto nos lembramos. Eu recordei da parte ruim de crescer: a primeira vergonha pública sentida. O primeiro cadáver que vi. A angústia de perder um objeto que amava para um adulto. A sensação de ser tratado com injustiça. Como era não ser escutado ou respeitado pelos outros. O medo experimentado sozinho, impossível de ser compartilhado. Um dos méritos dos contos de “Menores que o céu” é abrir a caixa de Pandora da infância dos leitores, revelando questões que imaginávamos estar sepultadas, mas que continuam fazendo parte da nossa essência: a criança ainda mora no corpo do adulto.

Logo na abertura do livro, um conto nos coloca diante do dilema de uma criança que, condenada à morte precoce por uma doença incurável, precisa lidar com a esperança dos seus pais de curá-la, esperança essa que não passa de um egoísmo dos adultos, pois tudo o que o menino deseja é viver com intensidade o pouco tempo que lhe resta – não tentar aumentar o tempo de vida, mas aproveitar o pouco tempo que se possui. É um conto pesado – poucos assuntos despertam maior medo do que a doença de crianças -, mas com toques de humor, quase uma tragicomédia, e aqui está outro detalhe interessante do livro de Gean Paulo Naue: por serem contos narrados a partir da ótica da criança, eles tratam de temas pesados, sim, mas com leveza e com uma visão de mundo inocente, ainda não totalmente formada. Em outro conto, uma menina que recém perdeu o irmão menor é retirada da sala de aula para “conversar” com a diretora do colégio, que deseja oferecer a sua ajuda e empatia para que ela lide com o luto: a menina vai ao encontro sem disfarçar a irritação – quem é que gostava de ir falar com a diretora do colégio? –, mas é nos entremeios do conto que percebemos a aterrorizante culpa da menina, condenada a carregar sozinha, sem poder compartilhar com ninguém, a dúvida se teria sido a responsável involuntária pela morte do irmão.

As narrativas presentes no livro mostram crianças submetidas a diversas forças, precisando lidar com elas da forma que conseguem com sua visão de mundo ainda em formação, mas Gean Paulo Naue confirma aquilo que sempre imaginamos: as crianças conseguem ler as situações de forma muito melhor do que os adultos ao seu redor. Talvez por entenderem a verdade – recordem que, na fábula infantil, todos os moradores do reino elogiavam a roupa nova do imperador, mas somente as crianças viam que ele estava nu –, as crianças lidam melhor com ela, inclusive se sacrificando para carregarem sozinhas o peso de decisões e escolhas que não tomaram, mas lhes foram impostas. As crianças são mais maduras do que imaginamos, e o fato de verem a verdade que espertamente tentamos manipular acaba por transformá-las em personagens trágicos, pequenos Atlas que carregam nas costas o peso do mundo.

Não é nada fácil escrever sob a visão de mundo de uma criança, pois temos a tendência de colocar pensamentos ou ângulos adultos nela. Nesse sentido, o livro de Gean Paulo Naue demonstra uma construção laboriosa, pois realmente vemos uma criança narrando seus dramas, não um adulto disfarçado de criança tentando nos enganar. É um livro que nos leva a reviver antigas questões infantis, mas também nos perdoa pelas decisões outrora tomadas em silêncio e depois sepultadas no fundo de quem somos: afinal, lidamos dessa forma com as situações do nosso passado porque era assim que precisávamos agir, não tínhamos outra opção. Esse é o teor da grande literatura, a literatura que devemos buscar não só escrever, mas também ler: aquela que, através de histórias habilmente construídas, mostra-nos que cada ser humano carrega consigo pesos, dores e alegrias. Se não podemos evitá-las, que ao menos sejamos perdoados pelas nossas decisões boas ou ruins, certas ou erradas, pois todas irão gerar repercussão nesse mundo, vasto mundo, em que não podemos ser Raimundo, pois isso seria uma rima, não uma solução.

Leia mais do autor em Sepé.

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