‘A CIDADE DAS LETRAS’, DE ÁNGEL RAMA

Por Luís Augusto Fischer

Nos tempos coloniais e ao longo do século 19, às vezes ainda depois disso, as ruas costumavam ter nomes relativos ao seu uso, à sua forma ou a figuras ali residentes. Rua da Praia; da Olaria; do Comércio; dos Cachorros; do Cotovelo; do Poço; da Ladeira. Beco do Mijo; do Fanha; dos Guaranis.

Depois da Independência e depois com o advento da República, esses nomes foram mudados para homenagear as figuras e os heróis do novo tempo. A praça do Paraíso virou praça Conde D’Eu e, depois de 1889, XV de Novembro. A rua da Igreja virou Duque de Caxias. A rua da Praia passou a ser dos Andradas. A rua da Ladeira virou General Câmara.

Uma terceira fase desse intenso jogo simbólico viria no pós-Segunda Guerra: nem mais nomes com valor de uso, nem aqueles com valor político, mas designações frias, tecnocráticas. O exemplo supremo desse modelo está em Brasília, com as SQ número tal, as superquadras.

Quem pensou nisso assim organizadamente foi Ángel Rama (1926-1983), um excelente crítico cultural uruguaio. Num livro póstumo, em português chamado A cidade das letras, ele evoca essa sucessão a propósito das cidades latino-americanas. E eu me lembrei disso por ter vivido por um semestre, em 2023, numa pequena (mas cosmopolita) cidade estadunidense, Princeton, Nova Jersey, que tem nome próprio, nomes de família, em uma série de prédios e lugares públicos.

As ruas são como as nossas, nomes de grandes figuras, em geral, com algum resto de nomes de uso – tem estradas chamadas Battle (batalha) e Cold Soil (solo frio), tem a Lovers Lane (beco dos amantes) e a Main Street (rua principal). Mas no ambiente universitário a coisa muda: a imensa e maravilhosa biblioteca se chama Firestone – “você já conheceu a Firestone?”, se pergunta ao que chega. Sim, ela assim se chama porque a família essa, a dos pneus, bancou a construção e parece que os fundos aqui sustentam os gastos dela. O prédio em que dei aulas se chama East Pyne Hall, de uma gente Pyne. O Davis é o centro que lida com as relações internacionais. A parada de ônibus (elétrico) em que eu descia para trabalhar se chama McCosh Walk, porque designa uma calçada, um caminho, uma Walk, ali perto, paga com dinheiro de um McCosh.

Ángel Rama não pensou nesse modelo de designação estadunidense: neste modelo, o nome não vem pelo uso ou aspecto, nem pelo heroísmo ou pelo exercício do poder político, nem por um destaque nos esportes ou nas artes – é pela grana mesmo, a grana doada para a universidade por um ex-aluno bem sucedido ou qualquer outro nababo que queira, ao mesmo tempo, devolver para a comunidade uma parte do que acumulou (e com receio de perder demais na hora de pagar os impostos da herança, também) e eternizar seu nome na placa.

O livro de Rama teve duas edições no Brasil, a primeira pela Brasiliense, em 1985, e a segunda pela Boitempo, em 2015, as duas com a mesma tradução, por Emir Sader. Falecido em acidente quando este livro estava no prelo, Rama não pôde acompanhar seu destino, que é ainda agora auspicioso.

A cidade das letras propõe uma interpretação original para o papel dos letrados nas cidades, e logo nos países, da América toda – e aqui já temos a segunda originalidade, esta visada que pensa a América em conjunto, em suas três partes. Uruguaio, o autor necessariamente sabia que era preciso pensar para além das fronteiras nacionais – alcance que brasileiros, estadunidenses, mexicanos e argentinos não costumam ter, acomodados em seus universos nacionais como sendo suficientes; crítico cultural de esquerda, Rama precisou sair de seu país na ditadura dos anos 70 (os milicos de seu país negaram fornecer seu passaporte), indo trabalhar primeiro na Venezuela (país que o acolheu e concedeu cidadania para poder finalmente ter um passaporte), depois instalando-se nos EUA, como professor. Foi o primeiro grande comparatista dos tempos modernos, entre nós.

Para pensar sobre a função dos letrados, Rama sugere uma terceira novidade interpretativa: diferentemente da Europa, em que as cidades nasceram do campo e do comércio, na América a cidade nasceu de projeto de poder sobre o continente. Nesta cidade com novo sentido histórico, o letrado vai ocupar papel decisivo, auxiliando na imposição da lógica colonial sobre a plebe rude (índios, caboclos, ibéricos extraviados, africanos escravizados e seus desafortunados descendentes). Para isso escritores e intelectuais em geral manejaram a língua escrita de modo requintado e autoritário, renegando a linguagem corrente e se refugiando num barroquismo ainda hoje presente – muito em particular, na linguagem dos advogados.

Por isso, data vênia, lembrei que era uma boa sugestão de leitura para eles. Mas também fará bem para todo professor, cientista social, historiador, enfim o intelectual com alguma inquietude no coração, que não se contenta com o papel que ainda agora ajuda a aumentar o abismo entre a gente comum e o pensamento escrito.

Se o prezado leitor e a gentil leitora por acaso estiverem indo a Montevidéu por agora, ou puderem encomendar a algum conhecido, o que for, eu ainda sugiro outro livro dele, papa finíssima lançada em 2022 pela editora Estuario, da capital uruguaia. Trata-se de Ángel Rama – uns vida en cartas. Correspondencia 1944-1983.

Rama faleceu antes de inventarem o email e todas as demais maneiras digitais que temos agora para conversar, mandar recado, desabafar, pensar. É um sujeito do tempo da carta, e por sorte temos esse livro imenso, não apenas por suas 880 páginas, mas igualmente por nos colocar em contato com as conversas de Rama com gente de alto calibre, como Reinaldo Arenas, José María Arguedas, Richard Morse, Octávio Paz, Vargas Llosa, os brasileiros Antonio Candido e Darcy Ribeiro, os uruguaios Eduardo Galeano, Juan Carlos Onetti e Mario Benedetti, e eu vou parar por aqui para não atordoar o eventual interessado.

Edição mais acessível para nós, para saber do pensamento dessa figura, é Ángel Rama – Literatura e cultura na América Latina, antologia organizada por Flávio Aguiar e Sandra Vasconcelos (editora da USP, 2001). Aqui temos uma súmula de seu pensamento na forma de ensaios e capítulos de livros seus.

Um pensamento original, cosmopolita sem perder de vista o miúdo das diferenças locais; um pensador que se desdobra diante de nossos olhos, em esforços analíticos ousados, para entender o mundo da cultura.

Leia mais do autor em Sepé.

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