‘A FALÊNCIA’, DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

Por Cátia Castilho Simon

A falência (1901) foi o quarto romance de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) que teve uma carreira profícua, sendo considerada uma das primeiras intelectuais brasileiras do final do século XIX e meados do XX. Também escreveu contos, peças de teatro, crônicas, obras didáticas e literatura infantil A escritora publicou em folhetins muitos dos seus romances. Consta que Memórias de Marta (folhetim de 1888 a 1889 e livro em 1899) trata do universo dos cortiços antes mesmo de Aluísio de Azevedo ter publicado O cortiço (1890). No entanto, quase nenhuma referência é feita ao fato. Perdemos nós, leitoras e leitores atentos às singularidades da produção literária brasileira.

A Editora Mulheres, de SC, reeditou as obras de Júlia Lopes de Almeida, no período de 1997 a 2014, reinserindo-a no cânone literário, com o apoio do neto Claudio.

A Falência foi republicada em 2003, 102 anos após a primeira edição. O romance é ambientado no Rio de Janeiro, meados de 1891, no início do período republicano brasileiro. O sucesso das vendas do livro, segundo depoimento do neto, garantiu a compra do famoso casarão da família, em Santa Teresa onde reuniam amigos e ofereciam saraus.

No romance, Francisco Teodoro – imigrante português, chega ao Brasil sem um tostão no bolso e, depois de acumular riquezas com o comércio do café é aconselhado a se casar. Por indicação de um amigo conhece a jovem, bela e pobre Camila e lhe concede um novo e rico destino. Os pais da moça, prontamente concordam com as bodas, e aceitam a generosa ajuda financeira do futuro genro e buscam, também eles, um novo destino, porém fora do Rio de Janeiro.

Camila e Francisco casam e têm quatro filhos. Eles vivem seus dias de glória e abundância com tempo determinado. Camila, mesmo ciente da sua condição de submissão e esposa sucumbe à sedução do amigo da família, Dr. Gervásio. O médico freqüenta a casa como se pertencesse à família. Todos do entorno sabem do idílio, menos Francisco o que garante a sobrevivência de Camila, posto que o assassinato das mulheres adúlteras fosse considerado justo, na sociedade da época.

A ambição do comerciante o leva a buscar outros meios para alcançar lucros ainda maiores. Francisco acaba vítima de um grande golpe que o leva à bancarrota. Envergonhado com o fato de ter sido enganado em seus negócios, suicida-se. A partir daí a família sofre um revés e terão de viver em condições de pobreza ou quase miséria antes inimagináveis. O único a se dar bem na história é Mário, o filho que envergonhava Francisco por preferir a boemia ao trabalho. O rapaz casa-se com uma moça rica, retorna da Europa após as núpcias e segue sua nova vida sem ser afetado financeiramente pela morte do pai. No retorno, tenta direcionar os destinos das mulheres da família conforme compete aos homens em geral. As irmãs menores e gêmeas, Lia e Rachel, sugere que as entreguem à baronesa, o que é feito. Depois as meninas retornam à guarda da mãe. Ruth, a filha que desenvolveu habilidades musicais, usará desse conhecimento para sobreviver. Camila descobre que Gervásio já era casado e não poderá ser a solução para sua vida de acordo com o que o filho lhe indicara. Nina, sobrinha de Camila, que vivia como uma agregada à família, ganha uma casa humilde de Francisco, por ocasião de um aniversário e por insistência junto ao pai, da sensível Ruth. Nessa casa, as mulheres encontrarão teto para viverem e traçarem novos destinos.

O romance, quando na voz de Camila se impõe enquanto contraponto ao destino trágico de uma Bovary. Ela não acha justo que homens possam trair, como certamente Francisco o fazia, pois a sociedade assim lhe permitia. E as mulheres sejam mortas pelo mesmo ato apenas por serem mulheres. Por essa razão, ela recusa a leitura de um livro indicado pelo amante que lhe diz tratar de um amor parecido com o deles. Peremptoriamente, responde: ‘Pois não leio, sei bem como isso é injusto e como deve terminar’.

Não há dúvida que o romance levantou questões avançadas para a época e colocou em evidência conceitos caros à família, tradição e propriedade. O livro alcançou um grande público que o validou.

A escritora Júlia Lopes de Almeida, cronista, tratava de assuntos urbanos, políticos e culturais. Erudita como crítica de arte (música, dança, teatro, literatura) revelou uma consistente e privilegiada formação. Preocupada com questões sociais, acreditava na educação como fonte de realização e liberdade. Trouxe a questão do desarmamento, da água e da desigualdade social para as primeiras páginas dos jornais.

Outra situação que reafirma sua relevância para a época foi o fato de ter integrado o grupo de idealizadores e fundadores da Academia Brasileira de Letras, mas foi impedida de fazer parte do quadro por ser mulher. A ABL seguia as normas da Academia Francesa de Letras, essa foi a justificativa. Apenas o marido, o poeta, Filinto de Almeida, assumiu a cadeira na prestigiosa instituição.

Dona Júlia, como era conhecida, discursou ao lado de Berta Lutz na defesa do voto feminino em julho de 1931, no II Congresso Internacional Feminista, promovido pela Federação Brasileira do Progresso Feminino. Era a mulher de maior prestígio no meio cultural em todo o país e ainda assim ficou à margem do cânone literário brasileiro.

Leia mais da autora em Sepé.

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