‘A LENTIDÃO’, DE MILAN KUNDERA

Por Marli Silveira

A sensação do transcurso desatinado das horas é o sintoma do mundo contemporâneo, acolhido das grandes transformações tecnológicas que alargaram por completo os limites do espaço-tempo. Muito embora a fisiologia da cronologia, se assim podemos dizer, repercuta uma pequena variação na velocidade mesma do transcurso, a percepção de que o tempo passa mais depressa atravessa todas as experiências humanas, impondo um ritmo que reafirma e retroalimenta o sintoma. Não é à toa que a infância se transformou na principal geografia que guarda certo compasso com a lentidão e um tipo de experiência mais qualificada e original/originária. O tempo do Kairós nunca foi tão oportuno quanto a própria definição. De Zygmunt Bauman a Byung-Chul Han, para citar dois importantes autores contemporâneos, este ainda em plena atividade intelectual, procuraram compreender a dinâmica e as idiossincrasias do nosso tempo. A liquidez nas relações, inclusive as vinculadas aos valores morais e ao estatuto das emoções, é o diagnóstico de Bauman. Chul Han aponta a sociedade totalmente transparente, despida da negatividade, como resultado do processo de objetivação constante das relações humanas, prescrevendo um itinerário liso e linear, atrelado ao destemido tempo do supérfluo e da intolerância com as demoras e as experiências mais profundas.

Na Literatura, Milan Kundera dedica parte significativa de sua obra e personagens aos efeitos que a modernidade provocou e provoca na percepção do mundo. Para Kundera, a velocidade está para o esquecimento, assim como a lentidão está para a memória. E é justamente o par velocidade-esquecimento e lentidão-memória que protagoniza a pronúncia do modo de ser afetado com e no mundo, interpelando-nos ao convívio de experiências que tensionam índoles díspares das vivências possíveis na sua obra A lentidão (1995). Kundera cria, ou seria recria, cenas de duas perspectivas temporais que se cruzam e se implicam, irrompendo as dimensões do passado e do presente por meio de histórias de sedução que se entrelaçam, tecendo um enredo surpreendente sem que seja sentido com surpresa pelos próprios personagens.

O homem de capacete, impaciente sobre sua moto, desejando encurtar o tempo e atravessá-lo o mais depressa possível, é a imagem impertinente do requisito básico da sanha do nosso tempo. Enquanto outro, encarnando um típico personagem saído dos romances libertinos do século XVIII, arrasta-se pelos corredores do palácio, transformado em hotel, disposto a alargar a experiência curvada sobre o movimento dos pés. Madame de T. retém a sabedoria da lentidão e se ocupa de empurrar o excesso para a calmaria dos gestos miúdos, impedindo que a plenitude seja vivida no instante encurtado da satisfação momentânea. A experiência desdobrada em vários recortes da mesma história, aprofunda a fisionomia da passagem, evitando que o tempo se diga sem o cuidado da própria inscrição no tecido da hora.

A contrapelo da demora e dos resíduos eróticos da nostalgia atirada na direção do futuro, o indivíduo moderno deseja apenas viver a intensidade do próprio gesto, incapaz de tolerar a passagem do tempo e dos dissabores que aderem ao transcurso vivido com dedicação e sensualidade. O homem curvado sobre sua motocicleta, dirá Kundera logo no início do livro,

“[…] só pode se concentrar naquele exato momento de seu voo; agarra-se a um fragmento retirado tanto do passado quanto do futuro; é arrancado da continuidade do tempo; está fora do tempo; em outras palavras, está num estado de êxtase; em tal estado, não sabe nada de sua idade, nada de sua mulher, nada de seus filhos, nada de suas preocupações e, portanto, não tem medo, pois a fonte do medo está no futuro, e quem se liberta do futuro nada tem a temer” (p. 5).

A sede de presenteísmo é a ocupação dos indivíduos saturados de agoras, pois são incapazes de suportar a demora, encolhidos pela violência da desocupação. A antecipação, não da morte/finitude, condição íntima dessa completude existencial possível, é alargada na direção da ociosidade perversa de um nada esvaziado de imaginação, imposta por uma sociedade produtivista e empobrecida pelos excessos. Se a luta contra o esquecimento pode ser a chave para se compreender o caminho empreendido por Odisseu na sua volta a Ítaca, como as artimanhas humanas para estabilizar as arquiteturas do tempo plasmadas nas invenções e seus corolários, nossa época é marcada pelo processo inverso: “o desejo obcecado pelo esquecimento” (p. 41).

A lentidão se esquiva da mandíbula perversa de Chronos, entretido com a tarefa de impedir a própria ruína, circunscrevendo um itinerário desimpedido da medição que arrasta tudo o que existe para matematizável purgação do desacontecido. Se a morte arrasta suas presas para o destino dos iguais, como já escrevi em outro texto (Silveira, 2024), a velocidade empurra a lembrança para o repositório do esquecimento, pois o percurso da memória é forjado pelos gestos que cismam a contracenar com as experiências de demora, vergando a hora na geografia do mundo. Como não podemos segurar o tempo, acolchoado de infinitas finitudes, nossa tarefa consiste em soletrá-lo nas platitudes cotidianas e alargar as experiências limiares que tutelam outras cronologias.

Kundera, em A insustentável leveza do ser (1982), já lidava, entre outros aspectos, com o tema da permanência, mas a partir de um sutil e intrincado jogo entre leveza e intensidade, peso e a repetição ad aeternum do mesmo. Quanto mais nos aproximamos de experiências que nos lançam nas contraturas do mundo, empurrando a leveza para o abismo do esquecimento, mais prementes são as marcas que impressionam nossa memória. Inversamente, a intensidade dos momentos vividos, enleados ao êxtase da entrega total, encurta o destino da sua estada, tornando opaca sua ousadia na pronúncia da lembrança.

“Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é”

O peso resulta da experiência da concretude, do sentir os deslocamentos do espaço-tempo atravessados na cadência do corpo. A leveza é efêmera, gesto de uma sutil permanência acontecida nos ombros da velocidade. A impossibilidade da demora, seduzida pelas sensações hiperbólicas do mundo contemporâneo, implica os indivíduos à estética do liso e transparente, distraindo o mistério da sua cumplicidade poética com a lentidão e afastando, em gradação inversa, o peso da memória. O esforço de lentidão, proposto por Kundera, consiste neste exercício de desdobrar o instante em cenas de um mesmo movimento experimentado com parcimônia na sua realização.

O que a pedagogia da lentidão nos ensina é exatamente a condição frágil do ser humano. De que morremos infinitas vezes todos os dias, mas por conta da inexorável finitude, podemos experimentar a vida e os seus desdobramentos com o vagar dos dias cinzas. “Entardecer o tempo é um modo de morrer menos, sem que para isso se desajeitem os anos” (Silveira, 2021). É preciso entardecer o tempo, senti-lo penetrando em nossas entranhas com a mesma dor e intensidade que são próprias das experiências que nos deixam atônitos, pois para buscar-se a si, necessariamente o ser humano precisa se sentir perdido. Alargar as horas, prezar o dia entardecido. Precisamos de um pouco mais de demoras, entretidos com as muitas voltas não contadas pela medição do tempo. Quando conto minha história, não desteço o calendário da minha vida, debulhando dia após dia. Conto sobre o que resta, sobre o que se dobra enquanto evento esgueirado entre as horas enfileiradas.

Eis a tarefa humana: alargar o tempo, seduzir a morte e enfrentar o esquecimento.

Leia mais da autora em Sepé.

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