‘O PALCO TÃO TEMIDO’, DE RENATA WOLFF

Por Maristela Scheuer Deves

O palco tão temido (Dublinense, 2023) é o primeiro romance de Renata Wolff, mas ela não é uma estreante na literatura – quem leu os contos de Fim de Festa ou os poemas de Manhattan lado B, que vieram antes, sabe bem da qualidade de seus escritos. Nesta obra, entretanto, a autora vai além, construindo uma narrativa em que se alternam dois tempos e diferentes personagens, numa teia intrincada cujas relações só se esclarecem ao final.

Inspirado no conto O inferno tão temido, do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti – que, aliás, aparece no prólogo e no epílogo –, o livro gira em torno da atriz Graciela Jarcón, uma estrela da comédia argentina que decide, pela primeira vez, fazer um grande papel dramático, o de Lady Macbeth, e provar que também pode fazer um teatro “sério”. O problema é que ninguém acredita que ela vai, realmente, pisar no palco para essa peça.

A trajetória de Graciela é acompanhada no “presente” dos anos 1970, quando ela se prepara para a peça, e no passado dos anos 1950, quando ela ainda sonhava em ser atriz e limpava os banheiros da pensão em que morava. Em paralelo, a trama apresenta duas jornalistas do El Nacional, Milena e Victoria, que, também nos anos 1970, têm de enfrentar uma realidade em que nem tudo pode ser publicado nos jornais – afinal, é o auge da ditadura na Argentina. Enquanto uma das repórteres se depara com questões que têm a ver com o período que seu país atravessa, a outra parece obcecada em entrevistar Graciela.

Diversos personagens secundários ajudam a povoar cerca de 300 páginas do romance e a dar mais vigor a ele: Rafael Jarcón, que chega na pensão e logo se torna amigo de Graciela; Rosa Ríos, a “pérola negra”, que se apresenta com Rafael na casa de tango de uma polonesa; Nelly Lynch, ex-atriz que ajuda a iniciar Graciela na arte de representar; Cacho, amigo de Victoria, e vários outros

A narrativa transita por casas de tango, teatros, cafés e confeitarias da capital argentina, levando o leitor a passear pelo cenário portenho enquanto ele se pergunta o que vai acontecer com a grande dama da comédia. Conseguirá ela vencer seus medos? E, aliás, de onde eles vêm? Que segredo ela guarda? E Milena e Victoria, o que têm a ver com Graciela? Como e quando essas histórias se entrelaçarão?

No cerrar das cortinas, teremos as respostas. Até lá, o conselho é aproveitar a leitura – e o mergulho no mundo fascinante, embora nem sempre fácil, do teatro.

Leia mais da autora em Sepé.

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