Por Lucas Borges
Escrevo sobre um romance que segue sendo um mistério a ser resolvido. A ex-atriz Ayami vaga pelas ruas de Seul após perder seu emprego no teatro de cegos. E nesse andar pelas ruas de uma cidade grande que o onírico e o real se misturam, com cenas que parecem se repetir páginas após páginas, enquanto ela procura sua antiga professora de idiomas, a levando até mesmo a enigmática e ensolarada Valparaíso. Durante essa jornada, ela interage com um poeta estrangeiro e um colega de trabalho, enquanto a realidade ao seu redor começa a se dissolver, mergulhando em uma atmosfera surrealista.
A obra desafia as expectativas de linearidade ao apresentar uma narrativa cíclica e fragmentada, com cenas que se desdobram de maneiras múltiplas e contraditórias. Esse recurso não apenas reforça a sensação de desorientação, mas também dialoga com o estado psicológico da protagonista, que vive em uma constante tensão entre o real e o imaginado. A escrita de Bae Su-ah é rica em detalhes sensoriais e marcada por uma linguagem poética, o que amplifica a dimensão onírica da história.
“Noite e dia desconhecidos” é uma obra que desafia os limites da ficção literária, operando mais como uma meditação sobre a condição humana do que como uma narrativa tradicional. É uma leitura que exige atenção e disposição para entrar em um universo que ecoa os sonhos e as incertezas da existência. Para quem aprecia histórias que subvertem expectativas e mergulham em camadas psicológicas profundas, o romance de Bae Su-ah é uma experiência enriquecedora e inesquecível.
Em suma, “Noite e dia desconhecidos” é uma obra que desafia as convenções narrativas tradicionais, mergulhando o leitor em uma experiência literária que explora os limites da realidade e da percepção e realiza aquilo que todo grande escritor deve ser capaz de fazer: dar espaço interpretativo ao leitor, pois o grande escritor é aquele que antes de mais nada acredita na intuição do leitor e então passa a deixar breves lacunas no texto a serem preenchidas, convidando, assim, o leitor a se tornar uma peça fundamental do processo. Esse processo visa respeitar o leitor e engrandece a obra gerada, pois não trata o leitor como um mero receptor do processo, mas sim uma parte ativa, de uma obra aberta. E é justamente esse mecanismo adotado pela autora, respeitando ao leitor e dando espaço e margem para interpretação, como acontece nos sonhos mais remotos.

