‘CANÇÃO DERRUÍDA’, DE MAR BECKER

Por Dilan Camargo

A vida nasceu no mar. A poesia renasceu no infinito mar de Mar Becker. Permitam-me logo usar o lugar-comum para me afastar duma pedanteria tão notória quando se escreve sobre poetas e poesia. Ao contrário, prefiro me aproximar de Mar Becker e da sua poesia como um humilde pescador que vai ao mar em busca de um peixe que nada arisco em profundezas. Mesmo que fique para sempre com as redes e anzóis vazios entre as mãos, ele vai ao mar.  Não vai pelo peixe, mas pelo o que ele nada. Vou à sua poesia pelo que ela pode revelar do meu mais íntimo mistério.

meus lábios queimados
fiéis ao mar apenas

Ao ler e ouvir Mar Becker dizer os seus poemas, convenci-me de que é impossível reduzi-los a qualquer inútil interpretação ou filiação literária. A sua poesia não se explica. Nenhuma poesia se explica. Melhor assim, para não nos deixarmos distrair pelas romancices de uma racionalidade adoentada. Sua poesia permanece em estado de mistério e nos convida apenas a nos deixar fecundar por ela. Ser fiel à Mar. É preciso engravidar dessa poesia. É uma poesia de nascimentos. Ela pega nossa mão e nos ensina a não temer o mistério, apenas a contemplá-lo. Leva-nos a passear pela paisagem indefinida da supra-realidade e nos traz de volta. A poeta é segura nesse território.

Na sua poesia há infinito mar. Não há tédio ou espírito pairado. Não há sono de águas dormidas. Há concepções com hipóteses de vidas. Ela se rebenta, se convulsiona. Também serena. Como raros e raras poetas, Mar Becker nos conduz ao alcance do estado de estesia. Ao máximo do conhecimento e do autoconhecimento pelo sentimento do belo.

Na minha experiência de leitor, é uma poesia que se reescreve a cada virada de página. A cada leitura o poema já é outro. E de novo surpreendente. Não só talvez por já sermos outros, mas pela sua própria potencialidade poética. Suas células poéticas se multiplicam num modo contínuo, não como máquinas hipotéticas, mas como palavras vivas, reais.

A poesia de Mar Becker, em seu livro “Canção Derruída”, já nasceu como uma água-viva da espécie medusa. Biologicamente esta é considerada imortal. Ela consegue voltar no tempo, ao seu estágio inicial, e repetir o seu ciclo vital.  É uma poesia que vai permanecer, pois a sua autora foi e continuará a ser um acontecimento histórico na literatura brasileira contemporânea.  E isso, somos nós, os seus leitores e leitoras de hoje e de amanhã que decidimos.

É um livro para ser lido e relido. Poesia inesgotável.

Leia mais do autor em Sepé.

1 Comment

  1. Belíssima resenha, Dilan! Poetas de alta sensibilidade como a Mar e tu, ou apreciadores da poesia, como eu e outros tantos, somos todos pescadores, em busca dos esplendores desta vida que não nos cansa de surpreender.

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