Por Athos Ronaldo Miralha da Cunha
O romance de Aureliano de Figueiredo Pinto deveria ter melhor destaque em nossas incursões literárias e clubes de leitura.
Memórias do Coronel Falcão foi escrito entre agosto de 1936 e março de 1937 e publicado, postumamente, em 1973 pela editora Movimento. Aureliano faleceu de câncer em 1959 e a publicação teve boa aceitação pela crítica pelo seu valor histórico, pois tratava da crise das oligarquias rurais pela ótica de um grande proprietário. Um romance de fronteira escrito por um médico e estancieiro. Se publicado no seu tempo, certamente, teria alcance mais universal entre os leitores.
O romance de Aureliano faz um relato político-social do universo interiorano no período dos governos de Borges de Medeiros no início do século XX. A história segue um estancieiro solteiro e sem filhos. Falcão – o protagonista – aceita concorrer a prefeito em uma pequena cidade do interior, e sofre com os eventos relacionados a campanha, eleições e administração municipal. Logicamente, há um triângulo amoroso.
Consta que Aureliano ao ver seu filho manuseando o original do livro, tentou destruir o romance atirando ao fogo. Sentenciando que importava livros de Eça de Queiroz e não era para o guri ficar lendo essas porcarias.
A esposa Zilah salvou o “Coronel Falcão” da fogueira e para a publicação algumas partes do texto foram reconstruídas através de consultas aos amigos com quem Aureliano dividia seus escritos, principalmente Antero Marques com quem mantinha uma assídua troca de correspondências.
Aureliano era um leitor de clássicos, um homem erudito que misturava o linguajar culto e popular com muita maestria. O livro é repleto de citações em espanhol, latim e diálogos profundamente campeiros. Um clássico regional gaúcho que sobreviveu ao seu tempo e merecedor de estudos e leituras para quem deseja conhecer com profundidade a genuína alma do campo e das estâncias.
Quem sabe se num médio prazo não estaremos lendo nos memes de literatura gaúcha e alguém perguntando:
“Stelita traiu Witroski?”.
Para descobrir, enfrente as 212 páginas de Memórias do Coronel Falcão.

